Fórum das idéias e textos que surgem na minha cabeça em momentos variados. Textos de todos os tipos que traduzem a minha natureza de escritor à linguagem visual.
EU SOU
idéias em construção
pensamentos fugidios
curiosidade encarnada
vontade delirante
devoção convicta
ironia escancarada
extravagância desmedida
loucura contida
felicidade maravilhada
sensibilidade voraz
comunicador por excelência
quarta-feira, junho 09, 2004 Dona Augusta
No dia que ela posou para as fotos, decidiu vestir o mesmo de sempre. Também não teve vergonha de tirar toda a roupa. Ela se pôs diante da câmera numa dança lasciva e sem pudor e encantadora no recato infantil, que vez ou outra avermelhava seu rosto.
Vestiu mesmo o de sempre. Ela é muito velha e tem origens desconhecidas, ninguém nem pergunta, que é para manter o mistério. De beleza ou feiúra ímpar – só ela pode ser negra, branca, oriental, índia, mestiça e cabocla – adornou-se com rodas e faróis, néons e multidões. E não deixou de fazer as mesmas exigências, aquelas que ao ouvido de muitos soariam descabidas.
Pôs na vitrola o mais empoeirado dos vinis do Adoniran. Cantou e cantou alto, com fôlego e vontade, vez ou outra saindo de foco na alegria. Ela brincou com a letra da música. Misturou o flash do ensaio com as ‘frechadas’ do olhar daquele ilustre paulistano. Pelo menos paulistana todo mundo sabe que ela é. Ouviu Cartola também, mas nada de melancolia.
Cansou da luz de estúdio e foi abrir as cortinas, pra deixar a luz da cidade entrar. Pediu um café e fumava quente como panela de pressão. A fumaça ia invadir a objetiva. O fotógrafo não se zangou. Sabia que a fumaça e a luz desgovernada, assim como o pó de café no lugar de pó de arroz, eram as manias da Augusta.
Já que vinha a noite, pôs logo um Dizzy Gillespie pra animar. Na percussão, ela batia as mãos nas coxas brancas de neve e escuras de café. As marcas de pneu não apareciam sob a meia-calça metálica dos fios para ônibus elétricos. Olhos puxados, cabelo duro e lábios rosados, ela se perdeu no frevo gringo de Duke Ellington e soltou a voz em gritos que nem a Ella Fitzgerald ou sua irmã gueixa cafuza. Ela seria uma Elza Soares dinamarquesa muito à vontade naquele samba do crioulo doido regado a muita garoa, fumaça, cafeína e cachaça.
No candomblé rococó da meia luz chuvosa, contrastes à flor da pele, ela se despiu. Ficou nua acovardada, envergonhada, deslumbrante e pensativa pulsante diante da lente. Deixou apenas que a franja de cabelos finos, lisos como som digital, cobrissem seus olhos pétreos azulados de tufão.
Deitou para trás, os bicos dos peitos arrepiados no começo do outono, e deu uma tragada num beque. Bob Marley deu uns gritos bem lá no fundo dos seus pensamentos. Num surto, ela jogou a vitrola pela janela e deixou rolar as músicas do Winamp, que ela deixou baixando no laptop antes do ensaio.
Depois da última tragada, bebeu em goles telegráficos um energético de cristal líquido, que era pra esquentar pra balada. Ficou louca com Basement Jaxx e Sneaker Pimps, mas nunca esquece Adoniran e Ella Fitzgerald.
Foi até o armário de gaiola velha rendada pra pegar aquela saia de cetim avermelhada multicor. Queria agora cobrir só um pouco as pernas finas grossas, um pouco acima um pouco abaixo dos joelhos. Pôs também a blusinha dois números abaixo do seu para realçar os seios, sempre farol aceso e luz de ressaca.
No tecido da saia vermelha, alastravam-se alamedas. Não deixou de usar aquele cinto paulista brilhante, nem de lembrar os romances do passado. A hora de vestir era nostálgica. Lembrou do Álvaro, do Caio, do Luís, mas agora tinha o Oscar, que a chamou para ir pros Estados Unidos. Ela ia se acabar nos braços do doutor.
Curvou-se pra calçar as botas de couro graxa. Olhou para o piso de taco, uma ou outra madeira solta. Jogou a cabeleira pra trás num gesto só que contorceu toda a coluna transversal. Encarou de olho vivo e fixo a cruz pregada na parede meio carcomida. Fez o sinal e deu aquele beijinho no dedo. Era hábito.
Tinha marcado seus programas para depois do ensaio. Claro que Augusta se ofereceu também ao fotógrafo, mas ele pagou bem caro pela sessão, trânsito e ferragens. Ia gozar de outra maneira, e algo indica que talvez ele prefira os braços do Oscar. Nada mal.
Ela já tinha entre os clientes da noite alguém com nome meio estranho, um tal de Haddock, o padre João Manoel, que dava suas escapadelas, e até a espevitada Consolação, que, de sério, só tinha o nome.
O sexo era a gasolina dela e também o contracheque. Era tocar e saía faíscas, por isso ela brilha tanto nas fotografias. O cigarro era para marcar as interrupções da libido. Gostava de fazer o corpo tremer como jazz e moldar com aquela boca que não larga e garganta de pista de rolamento toda a fumaça das chaminés dos pulmões de calabouço.
Augusta é de galerias reluzentes que nem ouro. Ouro fino, ouro velho. Ela é de galerias subterrâneas, petróleo, fósseis, italianos, espanhóis, japoneses e coreanos. Contrabando clandestino imigrante era de praxe como os cafetões e cabarés, ocorrências e BOs no 4o DP.
Cara feia, sorriso macabro e sebo nas canelas pra fugir dos giroflex bem pra baixo da Matias Aires, depois das anáguas de dona Antonia de Queiroz. Quando apertava o cerco dos carabinieri, ela ia se perder lá no Anhangabaú e ainda toma um chá no viaduto, pra esquentar as cadeiras quando sobrava só o calor dos néons.
Na volta, gostava de olhar a hora no relógio do Itaú, marca-passo da avenida Paulista, cinturão e linha de contenção para a senhora dona Maria Augusta, que assiste no 1519 desse respeitável boulevard comercial da região central da capital paulista. Era tudo fingimento. Ela não conhecia contenção nem recato de verdade. Era pirataria de sutileza, já que ela vivia aos gritos e estremecimentos.
O cinturão da Paulista era uma onda de choques férreos com cada vagão que deslizava embaixo da estação Consolação. Cada roda no trilho fazia cócegas e dava um arrepio. Os trens do metrô davam à luz milhões de formigas que iam percorrer suas costas de cima a baixo. O mais bonito do espetáculo é que cada uma vinha com seu guarda-chuva. Olhando dos terraços, dava pra ver os capôs dos automóveis, o dorso dos ônibus, as serpentes elétricas que se recusavam a entrar pelos bueiros e, é claro, os insetos cosmopolitas fugindo das chuvas augustas.
Ela sabia que não existia estúdio para caber tudo isso, nem luz adequada para iluminar. As fotografias precisavam de momentos decisivos, nem antes, nem depois. Tudo durante.
Durante enquanto durava a dureza ou destreza de cada movimento dessa modelo esfinge escancarada. Esfinge para todo desatento, mas exposta a quem come com os olhos e lambe com as pálpebras. O flash tinha que vir entre um flash e outro da própria modelo. Augusta gosta de ser explosão de cores, gosta de vibrar a seu gosto, gostoso modo augusto de ser.
Só ela consegue tomar pileques de capuccino sem licor. Seu alucinógeno é tudo que é arte, ainda mais no outono, que ela pode usar um cachecol vermelho. Os cinemas, os teatros e os cafés piscam com o vapor do asfalto. Ela sorri de volta nós de lã e tesão de pérolas diante de cada película. Negativo queria dizer rolo, que queria dizer fotografia em movimento, farol aberto ou fechado.
Nunca nada fechado. Todo mundo sabe que Augusta é garota da noite, menina dos olhos da metrópole e puta velha acinzentada ao mesmo tempo. Só ela pode ser decadente e fogosa, inocente e culpada, melindrosa e lasciva. Tudo com a ternura sangrenta de um vagão a descer trilhos azeitados e luzes quentes na capital invernal.
Sempre um bife na chapa e pão francês no forno de sua boca sedenta. Boca amarrada de marfim carmesim. Olho azul, tricolor, alviverde e gavião de tufão. Carnaval enxameado de luzes.
Veio o doutor para auscultar. Temperatura difícil. Não pára de oscilar. A pressão é infinita, de soltar tampas de bueiro e esquentar os espigões da Paulista, o banco Safra, Conjunto Nacional e Galeria Ouro Fino. Os batimentos cardíacos desregrados, vivos e audazes, poderosos, covardes de imperfeição endoidecida e charme escorregadio como asfalto molhado. Viva por decreto e sem aparelhos.
Augusta é velha, mas bombeia como um vulcão. Ordens médicas mercadológicas de se manter quente para o cliente. Ciclo menstrual fora de série, inexistente. Libido sôfrega, ressuscitada aos trancos e barrancos, árvores dos Jardins. Insolente adolescente, já pariu muitos monstros e engoliu cadáveres e puritanos. Viva como nunca e nunca morta, nem fechada nem adormecida.
Precisava azeitar a garganta rouca de alcatrão pra escarrar com voz de negra os hinos de uma aborígine eslava. Queria quitandas do seu tempo de menina. Era uma tripa de gente sem o negrume exuberante de hoje e brincava só entre a Chácara do Capão e a estrada, que agora é Paulista. Mas hoje já tem passeios de aço. Perdeu quitandas e conheceu o mundo. Elétrica, metálica, chapada de pedra que só ela. Samba tamborins entre as verduras caducadas na neblina.
Perguntou com o último flash se era só isso. O fotógrafo nunca soube responder. Disse que por enquanto era só, mas que depois ficaria com vontade de novo. Sempre a mesma coisa. Amante tem gosto de fruto proibido. Augusta é um maracujá de gaveta ardente e tórrido – glacê petrolífero.
Com boca de bordel e cílios de asa-delta, losangos e penduricalhos, ela beijou o fotógrafo. Arranhou com as unhas de câmbio manual as costas cicatrizadas do caçador de imagens. Mordeu que nem máquina as pontinhas das orelhas dele. Levou pro asfalto e foi tudo ali mesmo. Paixão pavimentada, romance com gosto de piche, carvão, resina.