Fórum das idéias e textos que surgem na minha cabeça em momentos variados. Textos de todos os tipos que traduzem a minha natureza de escritor à linguagem visual.
EU SOU
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felicidade maravilhada
sensibilidade voraz
comunicador por excelência
quarta-feira, janeiro 05, 2005 Momentos num café
O café tinha oito mesas. As mais disputadas eram as três mais perto da janela. Havia duas no meio e mais três ao longo da parede onde ficavam expostas algumas fotografias e muitos livros em prateleiras.
Geralmente tocava jazz. Hoje não é diferente. Na vitrola, Billie Holiday canta ‘Strange Fruit’. São 16 horas e 31 minutos. Chove e o túnel do Anhangabaú, próximo dali, está interditado por risco de inundação. Os trens da linha vermelha pararam de circular e agora também os da linha azul. Trovoadas e um pé d’água no Largo de São Bento. Todos procuram abrigo. Ambulantes já fazem liquidação de guarda-chuvas. As bancas de jornal parecem flutuar. Helicópteros sobrevoam para dar notícias de trânsito.
Na terceira mesa à esquerda, próximo à janela, está um velho. Ele está na página 504 de um livro que lê há dois anos. O mesmo livro empoeirado. Usa como marcador de página um laço que a neta usava pra prender o cabelo quando ela tinha cabelos compridos há dois anos.
Na mesa em frente, uma mulher de pouco mais de 30 anos briga com a bateria do celular que insiste em acabar. Fuma um cigarro atrás do outro. Consegue fazer uma ligação. A redação diz pra ela continuar por ali e entrar ao vivo com o decreto da prefeita. Não dá, não tem bateria. Bronca de chefe. Raiva. Mais cigarro.
Atrás dela, também próximo à janela, sentava um casal. Ela diz que não pode. Ele insiste. Estão juntos há três anos. Ela não quer. Ele diz que é impossível. Ela diz que não consegue. Ele diz que eles têm que tentar. Ela diz que não vai ser fácil. Ele diz que supera as dificuldades. Ela diz que já tentaram e foi um fracasso. Ele diz que não agüenta mais. Ela chora. Ele diz que não adianta. Ela pede mais tempo. Ele diz que já deu todo o tempo. Não dá. Decidem romper, mas a chuva é forte lá fora.
Estão vazias as mesas do meio. Uma tem uma pilha de revistas de decoração, amassadas de tão folheadas e sujas com farelos de bolo. Na outra, cinzas transbordam de um pires e uma flor murcha gruda nas paredes internas de um vaso transparente.
Um rapaz se debruça sobre a mesa mais ao fundo da fileira perto da parede. Tirou os óculos, que só precisava para enxergar o que estava longe, e sorriu sozinho com uma xícara de café quase frio. Lembrou de alguém que gostava de café frio. Como é que pode? Sorriu de novo pra chuva lá fora. Aquele alguém detesta dias chuvosos. Como é que pode? Escrevia coisas inúteis num caderno e as primeiras frases de uma grande história de amor num guardanapo. Limpou a boca e esqueceu.
Na mesa em frente, olhando pra ele, estava uma estudante de arquitetura. Tinha um esquadro, réguas e canetas de ponta fina. Parecia desenhar algum prédio. Na verdade era uma casa com paredes de vidro. Mordia uma das canetas e prendeu o cabelo num coque. Era a casa perfeita pra se apaixonar. Nunca teria filhos.
Ninguém sentava perto da porta. Atrás do balcão, exatamente às 16 horas e 31 minutos, seu Adamastor sofria um infarto fulminante.
Bebeu com pressa o café quase frio na xícara. Viu as senhoras fazendo fila na frente da igreja. Nem eram tão devotas. É que o velho Chico tava lá. Era terça-feira, dia de vender as flores. Pra Santo Antônio eram as rosas que Chico trazia e elas compravam. Deixou duas notas amassadas em cima da mesa e saiu debaixo de chuva. Entrou na fila. Pegou o celular e ligou. “Como é que ela tá?” “Morta, mortinha, não sobrou nada”.
terça-feira, janeiro 04, 2005 Então O último ônibus vazio dobrou a esquina. Os pés descalços tocaram o asfalto gelado de água de chuva. Olhou pra cima e viu insetos voarem em volta da lâmpada do poste. Atrás, as araucárias no vento. E a certeza de que ninguém vem. Ninguém vem não. É isso.
If I had the world to make spin and turn the trail of the bottom of my heart in the transit traffic metropolitan system of death in dying of the dancing sails of the shadows into my life of corrosion basement acid of darkness to the tumbling of hope and watchful illusion into the scream of the girl horrified in the night of the neon lights and the rain of wind and power sources into the electric current of thought as dream to fall forward in face of the thundering rails of my soul to cry the river of mercy in the dolls of paradise for the cool of all the water in the toxins of my confusion if mind had the way to return to the tunnel sacred of my tower flight connection in the cobblestone shimmering pavement of shattered admiration for the pain and struggle of desire for those sleeping over thorns and spikes of triggers in all hunger and thirst and thought and market to sell my love and body less love for physical ignorance bliss today next week tomorrow hopeless of gates and doors and hallways masked as nothing to look.