Fórum das idéias e textos que surgem na minha cabeça em momentos variados. Textos de todos os tipos que traduzem a minha natureza de escritor à linguagem visual.


























 
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EU SOU
idéias em construção
pensamentos fugidios
curiosidade encarnada
vontade delirante
devoção convicta
ironia escancarada
extravagância desmedida
loucura contida
felicidade maravilhada
sensibilidade voraz
comunicador por excelência





























meus olhos têm telescópios que enxergam mil metros longe de mim
 
sexta-feira, abril 11, 2003  
Carta a mim mesmo e a quem amo

Eu gosto de te ver, gosto da tua presença, de te olhar quando não estás olhando, de sentir tua mão me tocar, de viajar no rumo perdido de teu olhar. Eu tenho para te dizer apenas o silêncio que traduz tudo o que se passa dentro da minha cabeça e do meu coração.

E eu acho que a vida toda eu sofri de algo muito grave. Eu não sei, não consigo e nunca consegui me expressar. Talvez nem mesmo no refúgio da tinta e do papel minhas palavras possam transitar sem distorção.

O que eu preciso mais do qualquer coisa é que acreditem em mim, que ouçam minhas palavras e percebam que elas têm peso e querem dizer alguma coisa. Talvez houvesse uma época na minha vida em que eu realmente pudesse dizer aquilo que queria e realmente logrado algum efeito com isso. Mas aquela época, aquele eu distante, já sumiu e não tenho mais como encontrá-lo. Também não sei se seria o caso encontrá-lo.

É questão de desenterrar os vínculos perdidos das minhas palavras, e eu tenho que ser esse arqueólogo cuja descoberta é essencial para o futuro da minha espécie de ser. Eu me ameacei de extinção ao perder-me no meio de tudo, ao esquecer o ontem e o amanhã.

E por viver hoje só no hoje, meu amanhã se dissolve em um nada constante, absoluto. Minha fixação pelo hoje esgotou as possibilidades de meu amanhã, e mais uma vez eu me fechei no meu mundo. E esse mundo é belo, instigante e completamente falso e enganoso, construído sobre um alicerce do que não é eu nem ninguém. Eu criei a mim mesmo e agora eu, como escultor de mim mesmo, detesta o resultado da obra. Ainda tem muito aqui de substância amorfa e eu já nem sei como esculpir mais.

Eu estou vivendo, através desse eu desconexo e perdido, uma grande encenação que não acaba nunca. Os meus diálogos são previsíveis e repetitivos. Eu já cansei de viver a mesma cena tantas e tantas vezes, de me ver refazer todos os meus erros tantas e tantas vezes. Essa encenação doentia de meu eu projetado está matando meu eu interior e não parece haver nada que eu possa fazer para evitar. Não há nada porque eu preciso de palavras de ferro e olhares de chumbo para que isso aconteça. Toda a minha fala está dispersa e desfeita em contornos brilhantes, vivos e falsos.

E eu estou vivendo por declarações infrutíferas, declarações que apenas perpetuam a solidão por distanciar em milhares de léguas o objeto de meu desejo. As palavras do meu eu projetado têm sabotado e impedido a realização de todos os planos do meu eu interior. E eu quero controle, apenas controle. E temo que o tenha perdido para sempre. Já não há maneiras de evitar que eu caia no abismo desses erros recorrentes que me tormentam. Não há sequer uma válvula de escape que me possa levar ao sossego. Meu declínio é iminente e eu tenho que me salvar. Tenho que mudar as palavras que regem a minha vida antes que seja tarde demais. Talvez seja tempo de sufocar-me outra vez, e eu começo a me perder entre as camadas de tecidos negros.

I long for the day I´m able to say that it´s the last day that I´m using words. To say that they´ve gone out and lost their meaning. To say that they don´t function anymore and so tell the truth.

"These words I write keep me from total madness." - Charles Bukowski

13:57

 
Sobre a paixão

E eu sigo querendo ser aquilo que é orgânico, aquilo que é por dentro, que sempre quer ser e continua sendo e não pára de ser porque é o que está por dentro, por trás, por baixo, no âmago, no fundo.

Conclui que o entrelaçar de nossos corpos nada mais é que uma união física de idéias, sentimentos e delírios. Se nos tocamos febrilmente é porque em cada toque há certo êxtase ideológico, uma felicidade espontânea de saber que estamos em sintonia. Esses toques platônicos dispensam qualquer necessidade de aproximação carnal no momento.

Nunca estive tão exposto, tão despido das camadas e camadas de disfarces que me sufocam. Decidi despir-me por completo, jogar tudo fora e acender a luz. Nunca pensei que o brilho dessa luz pudesse pesar tanto assim, cortar tão fundo e escancarar meus esconderijos mais remotos. Mas agora a chuva acabou, e o sol com seus raios vem rondar cada cômodo do que eu era e do que eu sou.

E ele tem a chave de tudo, a chave que abre todos os portões de minha existência. Seus olhos, como a tudo já tem acesso, me dão sinais de que já se foram os monstros andarilhos e de que talvez eu não precise de tanta escuridão para esconder os vestígios das falsidades, mentiras e tristezas que construíram castelos imponentes e indestrutíveis dentro de mim mesmo. E cada sorriso vai demolindo os lares dos fantasmas.

"Don´t change a hair for me, not if you care for me. Stay, little valentine. Stay." - Chet Baker

13:55

 
Preciso me encontrar

Não sei onde vou me encontrar. Sei que preciso me encontrar. Existe um conjunto de ideais que busco atingir e, nos últimos tempos, tenho procurado resquícios deles em cada canto da minha vida.

Também não sei se quando eu escrevo algo ou procuro transmitir um sentimento, quem lê minhas palavras enxerga aquele mundo naquele momento que eu enxerguei e retratei. Há tempos tenho gravadas na memória as luzes dos arranha-céus de São Paulo - infinitos quadrados que se multiplicam com a distância e perdem-se entre as estrelas da noite paulistana. Estive a fitá-los repetidas vezes buscando conter meu medo de chegar mais perto e meu desejo de atirar-me do décimo-quinto andar. Alturas me assustam.

Em São João da Boa Vista vi tesouros. Cartazes, fotografias, as sombras de um passado entre o anonimato e a fama - o passado de meu avô. Como fora encarregado da projeção de filmes no antigo cinema de Aguaí, ainda tem as lembranças daquele tempo amontoadas em caixas de conteúdo infindável. Não fala inglês e nunca esteve nos Estados Unidos, mas fala de Marilyn Monroe, Rita Hayworth e Marlene Dietrich como se as conhecesse pessoalmente. Ainda guarda fotos da época que James Dean ditava a moda. No passado de meu avô e em seu presente de artista por encomenda, encontrei um pouco de mim mesmo. Aquelas caixas do passado parecem guardar muito do que eu quero para o futuro.

Busco resgatar os fragmentos de mim mesmo que deixei cair por aí. Às vezes acordo de manhã e vejo aquele céu ameaçador. Então sinto saudades dele. O azul do céu me faz lembrar o azul de seus olhos e a garoa que cai no fim da tarde me faz lembrar as mil lágrimas que já derramei por ele. Quantas vezes não tive vontade de ser como ele, viver a vida dele? Quando me sinto triste, às vezes é apenas a luz do quarto que me incomoda e às vezes é a certeza de que ele já não faz parte da minha vida. E não adianta chorar. Restam-me apenas as memórias. Foi com ele que eu descobri que é normal apreciar dias chuvosos, apreciar momentos de solidão que nos aproximam um pouco mais de nós mesmos, apreciar a justaposição de antíteses e paradoxos, apreciar a confusão que precede o esclarecimento mais completo de tudo. Ele é uma parte permanente da formação de meu caráter.

Minha atitude agora é de certa indiferença. Deixei que minhas crenças e convicções se juntassem àquilo que sempre desprezei. Não vejo por que meus mundos não podem conciliar-se. Eu sou uma junção de tudo que há, do negro e do branco, do azul e do vermelho. Sorrisos podem virar lágrimas assim como o desespero leva ao alívio. Descubro cada vez mais que nada é permanente e o que parece sê-lo passa apenas por uma transição mais lenta e imperceptível. Agora penso que sou como a água.

13:53

quinta-feira, abril 10, 2003  
Cores

Sempre um retorno, retorno a um tempo de vozes já quase apagadas de minha memória, cores que logram perpetuar-se com os anos e pessoas marcadas pela evanescência e efemeridade de um momento que no fundo é estático, imutável.

Na vermelhidão da terra roxa nascem os galhos retorcidos do pé de acerola, que terminam no frescor de um verde cortante onde nascem aqueles rubros frutos que tornam opaco o azul do céu.

Às vezes, os pássaros derrubam os frutos no chão de terra vermelha, onde o cão negro de pêlos lustrosos fareja o que comer. É o jardim de minha tia Gisa, onde as roseiras são eternas como na casa de minha avó, onde um dia havia uma goiabeira gigante e meus braços mal alcançavam o primeiro galho.

No fundo ainda lembro a brilhante negrura das jabuticabas de dona Albertina. Tantas e tantas jabuticabas reluzentes que davam sabor às tardes de outono, quando ainda era criança.

E tudo aqui são cores, o verde do papagaio de Albertina, o chocolate dos bolos de minha avó, o vermelho das rosas, da terra, do chão, das saúvas traiçoeiras, o branco e amarelo das borboletas, o dourado do milho verde, os brilhos multicores do carnaval e os tons das festas juninas intermináveis.

Mais no fundo, vejo o vermelho vivo das melancias de abuelito e o verde brilhante dos kiwis que ele cortava nas sobremesas da lanchonete. Ainda era o tempo dos ovos de páscoa escondidos atrás da máquina de costura com suas teias de aranha. Era o tempo das luzes das festas de natal, a fartura da mesa sem caviar e champagne importado, mas uvas, mangas e laranjas em grandes bacias. Lembro que meus olhos brilhavam. Tudo eram as cores que perfilavam imponentes, sem ser ofuscadas pelas cinzas da tristeza. Eram sorrisos, risadas e brincadeiras de criança, como os desenhos de carvão nas paredes da chácara hoje abandonada às formigas vermelhas como a terra.

Ontem à noite, uma pequena trégua após dias de calor intenso que faz as roupas grudarem no corpo e a mente perder a astúcia. Finalmente o céu se desfez em água e trovoadas e refrescou a terra cálida, esturricada.

Vi ao longe as tempestades de vento e água apontadas do carro por minha avó, o roxo azul da tormenta sobre os campos verdejantes das laranjeiras em flor.

Vi ontem a cidade onde nasceu meu pai há quarenta e três anos, Limeira. Um dia de calor sufocante típico do mês de janeiro na região. Às vezes, pancadas breves de chuva refrescam aquela secura, mas o alívio é passageiro.

Minha mãe e eu buscávamos a certidão de nascimento de meu pai, que conseguimos no cartório pelas mãos de um mulato franzino que nos explicara a rotina e os mecanismos daquele cartório e apontara os gigantescos livros de nomes e datas que registram a existência alheia.

No caminho de volta, mais um menino do Brasil. Andava pela estrada sem camisa, passo sossegado, um menino quase homem, vermelho feito a terra, cabelos lisos e olhos que, de relance, pareciam claros. Fitou o carro por uns momentos e seguiu adiante. Mais um anônimo daquela massa que é a síntese do Brasil.

14:08

quarta-feira, abril 09, 2003  
A Sede e o Mar

Rumamos ao mar com sede, morrendo de sede. E o náufrago morre sozinho na vastidão d´água, engolido lentamente. Cruel e enganosa essa infinitude azul.

De perto, na praia, não é assim. Lembro-me de quando estive diante do mar com minha avó e então ela o via pela primeira vez. Seus olhos saltaram negros e brilhantes dos contornos que o tempo fizera em seu rosto. Fitaria com avidez aquela imensidão.

Fez com muito medo e hesitação o trajeto pela areia até onde começava a água. Dava passos tímidos, reticentes. Custava-lhe sair do lugar e quando chegou ao pé das ondas assustou-se com o último suspiro de cada uma, as milhares de pequenas explosões salgadas que cobriam a areia.

Ficou nitidamente gravada em minha memória sua surpresa maravilhada com tudo aquilo que via, com todo aquele mar. É como se fosse há poucos segundos que com força segurou meu braço com medo de ser tragada para dentro d´água. Lembro-me de seu riso solto, espontâneo ao entrar no mar. Lembro como o vento nos beijava de leve ali e como seu xale traçava no ar doidos espirais de alegria, assim como seus fios de cabelo. Embora já tivesse vivido tanto tempo e por isso acumulava linhas e entrelinhas sobre a pele, sendo-lhe roubada a cor dos cabelos e a leveza do andar, aquele sorriso ali era de garota, criança menina. Foi como se as ondas e a brisa lhe tivessem devolvido todo o esplendor dos anos passados. E ela perdeu o medo e ficou a contemplar o mar.

E me deslumbrou aquela transformação repentina. Me maravilhou mais talvez que o mar a tivesse maravilhado, talvez por ser indecifrável e única a experiência de ver alguém descobrir pela primeira vez a dimensão do mundo, de comprovar que não são boatos os relatos de quão grande é o mundo e quão pequena é cada pessoa.

E lá, diante do mar, morremos de sede, uma sede nunca saciada, a sede de entender aquele testamento à infinitude que se desenrola diante de nossos olhos, a sede de saber, de dizer e pensar. E tenho certeza que vovó percebeu quão salgada é a realidade, visível pelo leve balanço que tomou seu corpo quando viu pela primeira vez nascerem e morrerem as ondas e imaginar a grandiosidade da máquina do mar da realidade.

O náufrago está destinado a morrer de sede assim como os que se perdem nas areias da praia. Esse imenso azul traja algo tão belo que desnudar essa beleza é impossível, e assim todos morremos afogados nesse manto de estrelas e murmúrios dos naufrágios que ecoam entre os navegantes.

"Hoy mi playa se viste de amargura,
porque tu barca tiene que partir.
Al cruzar otros mares de locura,
cuida que no naufragues tu vivir."
- La Barca

Às vezes, os sons do movimento nas ruas me parecem o som do mar, e eu percebo que estou na cidade que não pára, que está sempre a navegar. São ondas que regem a orquestra dos pontos luminosos da capital, que oscilam de arranha-céu em arranha-céu num ritmo desligado do tempo.

15:16

 
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