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EU SOU
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meus olhos têm telescópios que enxergam mil metros longe de mim
 
terça-feira, abril 22, 2003  
Fale com ele / Enterro do acaso

Eu preciso lutar contra meu racionalismo exacerbado, esse ceticismo angustiante. Resulta que minhas dúvidas não são metódicas. Eu tenho logrado acabar com a beleza da dúvida ao abusá-la como instrumento insano de uma vontade ilógica de prender-me ao concreto, o terreno, que chega a ser duvidoso em si.

Já me foi dito que existe em minha vida forte tendência ao acaso, à sorte. E essa tendência reforça-se ainda mais com a influência que meu inconsciente exerce sobre mim, que não é mínima. Chega a ser, portanto, incoerente minha absoluta incredulidade, e talvez esteja na hora de eu começar a abrir meus olhos por completo, com mais proeza e avidez.

Encontrei no terminal rodoviário de São Paulo aquele menino da cantina que vira em Curitiba e que depois apareceu no dia em que prestei meus exames de admissão à universidade. O encontro de ontem foi o terceiro que ocorreu entre nós, e mesmo assim ainda não perguntei seu nome nem procurei saber se ele fora aceito como aluno da universidade. Apenas o vi, e a presença dele me paralisou, tirou-me as palavras e qualquer habilidade de dirigir-me a ele.

Meus pensamentos imploraram para que eu o abordasse, mostrasse que estava presente naquela cena também, reconhecesse aquele acaso incrível de nos encontrarmos justamente ali, no meio daquela multidão. Eu quis falar com ele, saber mais a seu respeito, mas não tinha pretexto. Como abordar um desconhecido apenas pelo fato de ele ter aparecido em minha vida repetidas vezes? Fariam dele um conhecido essas aparições recorrentes?

Sem saber a resposta a essas perguntas, operando pelo princípio básico de tudo desconsiderar quando não houver razão imediata e racional para atribuir-lhe algum crédito, renunciei ao acaso, desconsiderei a sorte. Apenas mantive o olhar fixado nele enquanto se distanciava de mim.

Aparentemente trata-se de uma série de coincidências, mas não poderia ser algo mais? Por que o menino, que para mim já representou o esforço e a coragem, insiste em aparecer na minha vida? E que força é essa que me faz rejeitar tudo como mero acaso sem preocupar-me com alguma explicação? E por que sofro da inabilidade de perguntar um nome? Se ao menos pudesse dar nome a essa presença, sentir-me-ia mais feliz, apenas por ter desvendado parte do mistério. E se eu for ao encontro dele deliberadamente, buscando informações a seu respeito, teríamos o mesmo destino? Assim seria abolido o acaso, mas talvez também a alma do momento antes regido por ele. E esse acaso é algo que eu enterrei, que está preso ao rótulo inexplicável da coincidência. E agora?

Agora lembro aquela manhã cinzenta de pássaros negros. Lembro querer acabar com a futilidade permanente da vida. Lembro querer atirar-me aos trilhos do metrô na Estação Tietê, pois nada resta senão a futilidade mais absoluta na vida quando ignora-se as bênçãos do acaso e da sorte. O racionalismo exacerbado leva à loucura. Será que um pouco de crença no inexplicável não pode e deve fazer parte da vida? Afinal, quem é o juiz absoluto de todas as crenças senão aquele que crê para si mesmo? Estou prestes a me permitir um deslize um pouco fora do racionalismo e dentro da fé inconcreta. Ninguém está olhando.

E o menino pode reaparecer a qualquer momento, e eu não posso deixar que desapareça novamente sem explicação. Ele poderia representar ou até mesmo provocar minha tão desejada fusão com meu inconsciente. Mas isso eu só vou saber se eu falar com ele.

23:09

 
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