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EU SOU
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meus olhos têm telescópios que enxergam mil metros longe de mim
 
sexta-feira, maio 02, 2003  
Línguas Secas

Saudades da língua de dentro, aquela que se resume a si mesma, fala sozinha internamente e diz tudo sem verbos. É a língua do pensamento, feita de substância concreta etérea, chumbo e ar de algodão.

Ele tinha cabelos enrolados, olhos arregalados e gestos de aguda curiosidade, vontade de tudo entender. No chão do vagão, ele comunicava com os olhos o que os lábios sofriam na tentativa de verbalizar. E só aqueles olhos sem brilho de tanto sorver a realidade surpreendente faziam a ponte entre ele e o mundo. O pai não deixou que dissesse qualquer palavra nem fizesse qualquer gesto, verbalizasse qualquer sensação ou sentimento. A mãe mantinha-se submissa de medo e olhava para o menino no chão do vagão junto com os pertences acumulados na vida. Diante dos outros no mesmo vagão, que corria veloz naquele mundo cinzento, o pai mantinha-se submisso de medo, como se o olhar alheio fosse os tapas que ele também usava para calar o menino. E o pai usou poucas palavras e fez mais gestos. Então a língua era estrutura interna.

Mais marcante do que a miséria como fator comum entre os excluídos, é a ausência da língua social. Opera neles só a língua de dentro.

E o pai era mais um Fabiano, só que esse menino só pode ser Baleia, já que ele diz tudo sem sofrer com a bestialização feroz. Só Fabiano o reprime por medo e ignorância. Vive ali só a língua de dentro, a social já esquecida.

Então os cultos têm a língua social bem treinada e gestos calculados com equações de elegância. Mas os cultos esqueceram a língua de dentro, e lá dentro entrou a máscara da língua social. E essa engana por dentro, impressiona por fora e corrói lentamente o ser. São cultas as discrepâncias entre o ser de língua social e a realidade. Então ela também se divide. A realidade de dentro e a realidade social operam em planos distintos, mas precisam das línguas distintas. Foi culto esquecer a língua de dentro, e agora sofre o culto com a incompreensão assustadora do dentro.

Sentimos fome e sede de realidade porque esquecemos a língua de dentro. As imagens da guerra, a chacina e o sangue e sabão escorrendo pelas escadarias do Carandiru falam a língua esquecida de dentro e dizem mais que diálogos de palavras em língua social. Sentir o gosto da realidade é roçar de repente a língua de dentro, toque efêmero. Então volta a desordem da língua social que ofusca tudo. Mas ela é a ponte entre o culto e o miserável. E como ponte não funciona porque o miserável perdeu sua coluna de sustento, aliás nunca teve sua coluna de sustento. Assim vagam os miseráveis por um plano inferior, o plano ignoto da língua de dentro, remoto e ignoto aos adeptos cultos da língua social.

E a discrepância é assassina. E não há tradução nem equivalentes. O que devia estar junto há muito separou-se e restou a angústia da fome pelas línguas. Satisfazer a fome é internalizar a língua social e verbalizar a língua de dentro, de maneira que operem juntas e sejam condizentes com a realidade, ambas as realidades.

Morre de fome de realidade o culto sem entender a alma, e morre de fome de verdade o miserável que entende só a alma. E estão isolados pela língua os cultos e os miseráveis. E não existe arquiteto que desenhe a ponte entre os dois senão a língua de dupla natureza cuja existência parece mítica.

O miserável arredio no mundo cinza é figura tão díspar quanto o culto eloqüente sem rumo nos recessos da mente.

A língua não fala sozinha.

"Há palavras que dão poder, outras que deixam mais desamparados, e dessa espécie são as palavras vulgares dos simples, a quem o Senhor não concedeu o saber exprimir-se na língua universal da sabedoria e do poder." - Umberto Eco

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