Fórum das idéias e textos que surgem na minha cabeça em momentos variados. Textos de todos os tipos que traduzem a minha natureza de escritor à linguagem visual.
EU SOU
idéias em construção
pensamentos fugidios
curiosidade encarnada
vontade delirante
devoção convicta
ironia escancarada
extravagância desmedida
loucura contida
felicidade maravilhada
sensibilidade voraz
comunicador por excelência
quarta-feira, maio 14, 2003 Choro da certeza
Lágrimas inexplicáveis lavam o meu rosto, lágrimas reflexo de algo inusitado, interior eufórico. São um indício de um sentimento recorrente, aquele que me move a fazer tudo, a falar tudo e a ser tudo de repente, sem medo. É a euforia de algo tão íntimo que se manifesta nessas lágrimas, que são como soluço, rápido e passageiro. E me é incompreensível, e não faço questão de entender.
São palavras das mais simples, qualquer referência a um choro desconsolado, eufórico ou relatos dos mais prosaicos e, por isso, dos mais sinceros que despertam a audácia desse choro indomável.
Não é tristeza o que eu sinto. São lágrimas de certeza, lágrimas derramadas em nome da certeza que tenho de estar na presença das pessoas certas na hora certa.
Posso dizer que os alicerces de minha vida parecem estar se reconstruindo. Há quase um ano que afundaram na lama da mais desesperadora incerteza. Agora nasce um rio dentro de mim, um rio que leva a um mar desconhecido mas convidativo. Sei que por enquanto estou perto da margem e até onde posso ver o turbilhão é prazeroso. Sinto que meus laços afetivos encontraram onde se amarrar e minha vida não é um barco perdido nessa correnteza eufórica.
Choro de alegria, alegria da mais interna, mais íntima, mais profunda mas que me guia em todos os sentidos, me impulsiona aos sôfregos numa vontade absoluta. São lágrimas da certeza mais voraz. E assim eu quero chorar.
23:47
domingo, maio 11, 2003 Palavras de chá e café
Ele me disse que jornalismo não é uma profissão para escritores, para quem tem poesia na veia, como expressou em suas próprias palavras. Para o editor de uma grande revista, o jornalista é apenas quem sabe usar verbos de ligação, quem conhece regência verbal e sabe usar pontos finais. Um escritor não é um jornalista como jornalistas não são escritores.
Me considero jornalista e escritor e sou apenas um. Não vislumbro maneira de divorciar as duas naturezas. Tenho poucas certezas.
Meu jornalista é adepto do café. Ele vê com olhos que dissecam, analisam e extrapolam situações na tentativa de prever desdobramentos. Ele vê com oportunismo. Ele vê buscando o gancho, enxerga escrevendo o lead. Meu jornalista busca intersecções entre os fatos, vê com um olho no presente e outro perscrutando antecedentes e vislumbrando desdobramentos. Ouve à espreita do depoimento mais coeso, mais ilustrativo, quer a expressão que diz tudo. Meu jornalista fala com muito fôlego, fala para ouvir a asserção do discurso programado, preencher com certezas as lacunas pré-destinadas a elas. Ele vive no campo das certezas, no campo de cruzar fontes, eliminar as dúvidas, abolir a especulação insensata. Meu jornalista habita o mundo veloz das idéias que se completam no próximo parágrafo, parágrafos que interceptam idéias e depoimentos que integram o pensamento da utopia de certezas não lacônicas. Ele vive entre a realidade e a redação, o mundo e as palavras e é audaz decifrador. Ele só quer a matéria e vive no próximo momento, no dia seguinte, na certeza pós-fato.
Meu escritor é adepto do chá. Ele é detetive do incerto, trabalha feliz no campo das incertezas selvagens. Tem a liberdade onírica de ver e pensar e sentir cada situação, sugar tudo para a narrativa mais bela. Ele tem a liberdade de sonhar a realidade, de falar em poesia, de cifrar a fala em delírio, de ser e viver. Ele enxerga com olhos deslumbrados, abertos a tudo. Ouve na tentativa de encontrar as palavras mais belas, é guiado pela estética e emoção. Ele só quer o belo e o insólito e o desesperador. Ele vive no hoje com olhos fixados no futuro e seu passado é apenas magma de idéias. O escritor pode esquecer, pode inventar, pode querer mudar. Ele viaja no campo das idéias. Meu escritor só quer o sentimento, a textura da situação como quem trabalha uma tela, dirige uma cena. Ele quer o diálogo perfeito ou o não diálogo mais perfeito ainda. Ele só quer fitar o mundo através da chuva de palavras e são irrelevantes os antecedentes e os desdobramentos. Ele pode levantar a relevância por trás do fato, inventar o fato relevante, torcer o manto encharcado da história para que fique mais leve e belo. Pode acrescentar ou apagar trovoadas e tormentas. Meu escritor enxerga com vontade de poesia, vontade de traduzir a realidade para os signos, construir a escultura da verdade fictícia.
A maior certeza é que vivem juntos meu escritor e meu jornalista. Tomo café nos dias de semana e chá nos finais de semana. Às vezes influencia o escritor o jornalista e às vezes ensina ao jornalista o escritor. São inseparáveis, vivem juntos mas é importante que se isolem de vez em quando.
A dúvida permeia a certeza como o escritor permeia o jornalista e a realidade entra na ficção. A poesia corre na veia de todos, mas fica o discernimento sensato no pensamento. E todos tomam chá e café.
Soube da morte de um amigo hoje. Soube do momento que ele decidiu puxar o gatilho e acabar com tudo, como ele se trancou para fora da vida e como deve ter doído. Imagino e só posso apenas imaginar tudo o que se passou até que ele já não quis mais continuar sendo ele mesmo, respirar mais esse mundo. Deixou uma carta que eu nunca vou ler. Como escrever uma carta anunciando sua despedida pré-meditada do mundo? Eu penso e só posso imaginar, e isso dói imaginar.
Lembro como ele fazia belos desenhos, como ele usava as cores, como ele podia fazer do caos a ordem mais sensata. Lembro como ele atuava, se transformava no palco, sonhava e vivia através dos códigos dramáticos. Lembro seus passos decididos e a beleza loquaz de quem ele foi. E agora o que acontece? Como fica o que ele deixou sem ele aqui para explicar? Só sei que sinto saudades. Sinto pena e sinto ódio por incompreensão. Derramo lágrimas negras de incompreensão e vontade de voltar atrás. E se eu estivesse com ele naquela noite? Como tirar de suas idéias a bala de suas intenções? Ele foi seu próprio algoz e morreu sem conhecer o mundo, sem escrever um livro, sem dizer tudo que ele sempre quis dizer. E ele morreu sem que eu pudesse dizer para ele o que eu sempre quis dizer para ele. E agora vou ficar sem dizer, e não há como fazê-lo ouvir. Vou me desfazer em remorso.
Eu quero ele vivo de novo, quero que se desfaça esse engano, que estejam mentindo as pessoas e os jornais. Sinto saudades, muitas saudades. Sinto também a tristeza mais profunda, talvez mais pela circunstância do que pelo fato. De agora em diante creio não ter autoridade nenhuma para falar de morte, de suicídio. Vê-lo de perto assim me diz que eu não sei nada a respeito exceto a certeza de que eu nunca posso cometê-lo. Retiro minhas medíocres palavras do passado sobre o suicídio como escape da futilidade da vida. Prefiro à morte as incertezas dessa aparente futilidade que é vida e é uma dádiva e é mais bela que tudo que eu conheço. Desculpe minhas precipitadas declarações sobre a morte. Constato que sou um ignorante a respeito e quero continuar assim. E a minha tristeza diz o suficiente, manda-me esquecer tudo e admitir que eu só queria que ele mudasse de idéia.
Aqui tem muita luz e ele não viu. Talvez naquele dia ela brilhou com uma cor estranha, ameaçadora. Ele só quis fugir. E eu só enxergo a ausência dele. A dor não enxergo porque ela está dentro de mim explicando as coisas da vida.
And all that he left are words that scream a great nothing. And all I can hear is pain.