Fórum das idéias e textos que surgem na minha cabeça em momentos variados. Textos de todos os tipos que traduzem a minha natureza de escritor à linguagem visual.


























 
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EU SOU
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meus olhos têm telescópios que enxergam mil metros longe de mim
 
sábado, maio 24, 2003  
Grande Boca de Mil Dentes

E maio passou tão rápido, e este último ano passou tão rápido. Não senti as águas de março, nem as luzes de abril e agora vêm os ventos uivantes de junho. A tempestade de hoje na Praça do Relógio me levou aos outonos norte-americanos por uns segundos, e eu vi cores e sons e rostos que hoje voam de minha memória como as folhas naquele redemoinho endoidecido.

Ouço o vento uivar raivoso e melancólico, portas baterem ao longe, cães latirem no escuro. Sinto o tempo engolido pela grande boca de mil dentes. Sinto-me mastigado por sua audácia tenaz, seu descontrole pérfido. De repente, tristeza. Um sentimento de finalidade me invadiu e parece que tudo são páginas de jornal de manchetes sempre iguais. Só fica a sede, a fome e o calor.

Ela sentiu um grande calor e seus olhos de mel anil brilharam na angústia. Ela queria só o sossego mais sossegado, só um beijo de calma. E ninguém a deu tal beijo. E ela quis beijar e teve de se conter, conter na tristeza da contenção dos impulsos.

Então esse pode ser o fim. Dias de azul de mar e areia branca e dias cinzentos intermináveis na metrópole, dias que mastigam o corpo e mente e alma e moem os ossos e desfazem idéias e encerram loucuras. É o tempo que comanda a fome da grande boca de mil dentes da metrópole de Mário de Andrade.

E o vento soprou folhas na minha vida. E perguntam se ver o tempo passar é alegre ou é triste. Estou pensando que pode ser alegre, embora deparado com o tormento da finalidade aparente, inevitável e ineludível. Mas é alegre porque nenhum caminho é sem retorno, e para meu aniversário minha mãe fez brigadeiros e não há nada de que eu possa gostar mais do que esses brigadeiros de sensibilidade materna, esse doce e esse chocolate que permeiam o tempo fugaz de uma vida que vejo correr mais veloz ainda rumo à certeza da finalidade completamente incerta. Não estou triste. Estou muito feliz em saber que ainda existe e vive e inspira a sensibilidade dos brigadeiros. Estou feliz porque sei que independente da distância ou conflito que me separe de minha família, sei que ainda existe a sensibilidade dos brigadeiros, e ela é doce de certeza.

Então meu sonho seria recomeçar sempre os bons começos, prolongar a euforia dos princípios e sentir sempre o calor quando for hora de sentir o calor, sem medo de esquentar como as flores. Quero reviver começos, constatando que na grande boca de mil dentes não existem caminhos sem retorno. É só falar a língua certa e não temer o calor e a vontade. E vamos dizer tudo de forma escancarada, pelo menos num desses caminhos da grande boca de mil dentes, talvez pelos incisivos ou caninos, mas não pelos molares.

O tempo some rápido como as luzes de automóveis na avenida, como as gotas de água salgada suspensas no ar de uma onda. Mas não há necessidade de agarrá-lo. A necessidade é de mastigá-lo assim como faz a grande boca da metrópole, usá-lo por seus nutrientes e usurpar ao máximo sua essência de espaço entre dois acontecimentos na realidade. Vamos mastigar o tempo assim como faz a grande boca de mil dentes. Seria essa a única maneira de eu fazer um soneto de maio assim como Vinícius, só mastigando de maneira audaz como fazem os dentes da cidade mar de luzes cintilantes. Às vezes, só perdendo o sono nesse mar. Falta ler muito Pessoa, Hemingway, Wilde, Machado, Márquez, Shakespeare e Saramago. Então tento morder tanto quanto o tempo. Por um momento, despercebi a beleza da continuidade.

03:03

 
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