Fórum das idéias e textos que surgem na minha cabeça em momentos variados. Textos de todos os tipos que traduzem a minha natureza de escritor à linguagem visual.


























 
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EU SOU
idéias em construção
pensamentos fugidios
curiosidade encarnada
vontade delirante
devoção convicta
ironia escancarada
extravagância desmedida
loucura contida
felicidade maravilhada
sensibilidade voraz
comunicador por excelência





























meus olhos têm telescópios que enxergam mil metros longe de mim
 
sábado, maio 31, 2003  
Despedida de maio

E maio evaporou-se com indignações a respeito do elitismo da arte e recorrências dos testemunhos dos que não falam a língua social. Queria hoje só prolongar por alguns momentos a permanência desse mês em que deveria me encontrar. Queria hoje só constatar que não estou tão longe assim de mim mesmo.

Misturo a angústia de produzir arte para não sei quem e satisfazer-me momentaneamente, sabendo que no futuro morrerei sem público porque me falta um sobrenome digno de paredes de museu, com o sofrimento de um tolo e absurdo preconceito social em relação a aspectos de minha vida sobre os quais nem sempre tenho escolha. Maio acaba hoje com mais lembranças e reiterações de que jornalistas não são intelectuais, de que o mundo artístico é um desfile de moda extravagante e sobrenomes destacados e que a imprensa manipula e é manipulada num jogo de poder, um cabo de guerra entre empresários e governo. Maio acaba hoje deixando a certeza de que palavras têm que gerar lucro, senão é melhor que estejam mortos os jornalistas.

Maio não apagou minha certeza de que posso ser jornalista e escritor. A poesia não desapareceu de minha vida e isso é motivo de felicidade. São as idiossincrasias do ofício jornalístico que se insinuam mais perfidamente rumo a minha idéia de jornalista, que me tormentam, porém sem fazer-me querer sair dessa vida. Mesmo que os velhos de guerra digam ser impossível mudar esses ditames, o idealismo eufórico de adolescente ainda não me abandonou.

Vi uma gravura belíssima no Museu de Arte Contemporânea. Chamava-se "Rain and the Sea" e suas linhas de uma agudeza incrivelmente acolhedora ilustravam a beleza de uma tempestade. O mar não parecia mar, estava muito calmo. Mas a chuva era feroz, caía com força em linhas verticais distorcidas pela ventania do artista. Passou-me uma sensação de sossego e desespero, de alívio e sufoco, uma ambivalência permanente, ríspida de real.

Encaro o jornalismo hoje, agora no último dia de maio, como essa gravura. Está me passando uma vontade incrível de mergulhar nos fatos, nas entrevistas, nos relatos e ao mesmo tempo me assusta com a rapidez de suas revoluções, o tumulto das manipulações, a falsidade do relato real, objetivo e verdadeiro. É o tumulto mais belo que já vi, pois vem dele e só dele a imagem que temos do mundo, queira distorcida quer não. Dói saber que às vezes o mar é só piscina, ou que a piscina já virou mar e a chuva é devastadora, com clarões de relâmpago.

Trata-se de uma manipulação inevitável do tempo, assim como a fumaça da locomotiva de Chirico ou os gritos da menininha do napalm. É impossível fugir desse congelamento bárbaro de uma situação, da frieza da descontextualização. Mas não há profissão perfeita, livre de incoerências e barbáries.

Maio está indo embora com os resquícios do outono, as tardes de calor ameno, mas me deixando com sede do frio de junho, sede de descobertas calculadas e um emaranhado de intrigas a destrinchar. Deixa-me com a certeza de ter que ir até o fim nessa busca, vontade de desvendar até o último detalhe da intenção do artista à ganância do empresário e seus estilistas. Maio está me dizendo para ser o mais perfeito que eu possa ser e está me mandando constatar que o mundo quererá sempre fazer circunscrições indevidas e oportunistas de quem eu sou, e eu tenho que desfazer diante de todos as mal traçadas conclusões, mostrar que não sou menor por viver como vivo.

Maio acaba hoje deixando mais viva a paixão que sinto pelo mar e pela metrópole, o brilho da fusão mais perfeita e analogia mais propícia. Maio me deixou com uma sombra de vontade ou delírio fantasioso de amar a menina dos olhos de mel, de querer mergulhar ainda mais no mar dela e saber que lá não vou me afogar. E maio me deixou sabendo que nada é constante, disse-me que eu estava enganado e foi implacável e veemente ao dizer que fiquei cego, que confundi desejo com amor e que fui fraco. Mas isso me diz todos os anos, e eu caio nas armadilhas de abril até tentar recuperar o fôlego em junho, dessa vez num país tropical.

19:38

quarta-feira, maio 28, 2003  
Girl in New York

Try to picture her in Manhattan, a perfect New Yorker. Think of her taking the subway or a cab and wandering those crazy streets of posh in the city that never sleeps. Think of her in impeccable make-up, dazzling in the spring afternoon, shoes clicking on the sidewalks. Think of the lights reflected in her gaze, the red and blue and violet and yellow of the neon signs and the big screens.

Picture her sipping that latté near Central Park, adjusting her black frame glasses to see the fine print of an intriguing novel or stylish magazine. Think of the strands of hair carefully in place, locked bordering a frame of mind and look of bewildered passion as the sun sets over the Manhattan skyline. Think of her indiscriminate boldness as she faces the morning crowd, the elegance of her walk past the newsstands. Feel her rise like a wave over rush hour. Sense the twinkle in her eye over salad for lunch. Watch her crave the gusts of air from the subway´s cars that send her winter coat up into a whirlwind.

Look at her drenched in Christmas lights and glamour and Tiffany´s and Sotheby´s and Barney´s and the Metropolitan and art. Watch the beauty in her step, the velvet of her looks, the deftness of her hands. See how clever she is in the Big Apple. And she´s such a sophisticated lady, walks on Park Avenue, million dollar auctions. She´s splendid in the morning light and brilliant in the nighttime glow, flashes of light and dazzle beyond words.

She´ll smile when commenting the weather, laugh at the business crowd and drink up all the art with an insatiable thirst. Walks in Manhattan, twists of high heels and the shops of Fifth Avenue, skies of silver. Wonder what she´ll do on a rainy night. Ask her about the snowflakes tumbling down in Times Square and if her coffee is hot enough. She may be drinking tea, jaunting rhythm of her heartbeat. Ask her about the snowflakes and her thoughts on winter and night, her tea should be hot enough. Wonder what she´ll do on a rainy night without the opera.

18:52

 
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