Fórum das idéias e textos que surgem na minha cabeça em momentos variados. Textos de todos os tipos que traduzem a minha natureza de escritor à linguagem visual.


























 
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EU SOU
idéias em construção
pensamentos fugidios
curiosidade encarnada
vontade delirante
devoção convicta
ironia escancarada
extravagância desmedida
loucura contida
felicidade maravilhada
sensibilidade voraz
comunicador por excelência





























meus olhos têm telescópios que enxergam mil metros longe de mim
 
sábado, junho 07, 2003  
Saudade azul / Blues

O grande azul me convida a escrever, desenterrar um pouco do passado. Eu descubro ao ver imagens de minha formatura no ano passado e dos dias que a precederam que naquele momento eu estava feliz. Estava muito feliz. A vida se desenrolava diante de mim com a graça e a delicadeza de um balé, incrível como azul de mar sob sol escaldante. Vivia em sorrisos e só a felicidade provocava ocasionais lágrimas tão propícias em noites chuvosas.

Lembrei tudo. Lembrei a delícia das tardes vazias à beira do lago, meus pés vidrados na maciez da madeira do porto, olhar perdido na placidez daquela água. Lembrei as noites de café com Joseph e Rebecca, os dias de compras com Stephanie, as reflexões com David e minha vida com Sonya.

Marc Chagall diz que o mundo real e o imaginário são separados por uma camada fina, fina como pálpebra que quando fechada revela o mundo da imaginação, utópico em dourado, e também as memórias banhadas nesse esplendor criativo. Fecho os olhos e nem mesmo o ruído dos carros na Paulista me distancia daquela sensação de andar descalço pelas tábuas sobre a água daquele lago cenário de tanta vida.

O cilindro plástico de minha caneta quebra a luz do sol em arco-íris e projeta as cores sobre a folha de papel. Sinto fome dessa nostalgia colorida. Quisera eu que Chagall ensinasse a fugir do mundo real para o imaginário, pelo menos por uns segundos. Fugir para ficar.

Sei que sinto saudades do que nunca tive. Sei que naqueles dias felizes documentados pela abundância de fotografias eu poderia estar preocupado com alguma coisa, magoado com alguém, irritado com o acaso. A imperfeição engole absolutamente tudo, mas não corrompe a beleza indefectível da saudade, da memória ambientada na glória.

Eu queria ouvir os risos de Stephanie enquanto corria linda e descalça pela casa nas tardes de primavera, queria ver o sorriso de David ao tocar piano, queria sentir de novo o abraço e o beijo de Sonya. Eu quero voltar à perfeição mais fictícia e mais sedutora que existe em minha memória.

Tenho medo apenas de visitar de novo aquele mundo e, como menino que volta homem ao lugar donde veio, descobrir que tudo era tão pequeno, tão incrivelmente pequeno e abandonado. Mas as fotografias mostram que a vida se desenrolava diante de mim com a graça e a delicadeza de um balé, incrível como mar azul sob sol escaldante. Quero envolver-me no manto da irrealidade e mergulhar nesse mar azul, apenas azul com destreza onírica.

It was a vast, luminous dream in which his whole life seemed to stretch out before him like a landscape on a summer evening after rain. - George Orwell

18:46

sexta-feira, junho 06, 2003  
Aquele abraço

Ela segurava um guarda-chuva vermelho na chuva cinza. Aquele vermelho reluzia e eu lia poemas em páginas tortas e dispersas e eu escrevia comentários e eu percebia minha cegueira à sensibilidade. Vibrava com as verdades e os desníveis da corrente veloz do pensamento.

E eu afoguei o mundo naquele momento, apaguei a algazarra por momentos de compreensão de idéias internas externalizadas por um olhar alheio. Me senti preso numa prisão com vista para meus ideais perdidos. Percebi que nessa prisão foi muito fácil me desesperar e chorar e chorar. Chorar de incompreensão, morrer de amor por um fragmento de verdade voando sempre mais longe, olhar alheio sobre meu mundo, olhar alheio.

Olhar alheio sobre o que me é interno como o tecido das ruas de Paris e as gárgulas de Notre-Dame no itinerário eterno dos milhões de transeuntes. Descobri que é possível ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo. Independe da física da matéria, depende da freqüência, onda de pensamento. Quando um olho entra em outro, uma frase completa a do outro, ocupa-se o mesmo lugar.

Até que o outro foi meu Outro e não sei se fui seu Outro mas me contento em ser outro para ele que é sempre outro e oscila entre outro e Outro. Ele me deu um abraço que avivou o momento como viva vida vermelha do guarda-chuva na tempestade. Abraçou meu mundo de vozes apagadas ao som de La Vie en Rose. En rose porque não há nada melhor no momento que aproximar-me daquele vermelho vivo na vida de tempestade, rápido nos braços da menina.

O abraço do outro, cuja sensibilidade se mostrara então mais viva que coração, mais desvairada que paixão, foi meu I love you na Londres orwelliana.

Quero abraços como guarda-chuvas vermelhos. Se possível, quero andar sempre de sapatos vermelhos na vida vermelha em vermelho, destoando em nudez do cinza cruel de concreto em monotonia empoeirada.

Where are you going? Where do you go? - Dave Matthews

11:47

 
Paulicéia sagrada

Aqui é São Paulo, bem vindo
Onde um dia normal é proibido
Extremo da loucura, da libido
Milhões de pessoas equilibram-se sorrindo
Com suas inumeráveis faces irrepetíveis
Com suas inextricáveis vidas incompatíveis

Ônibus escritos em vermelho prometem crédito
Dinheiro, sorte, amor, felicidade, obséquio
Fim da cólica, enxaqueca, cefaléia, analgésico

E a vida passa correndo debaixo da terra
E acima da terra, congestiona e emperra
E acima de acima da terra, onde não se espera
E correndo fica a vida atrasada, pra nada
A gente buscando comida pra gente
Pros filhos da gente, cama e comida quente
Mas se não tem, paciência, tem que trabalhar
Já é hora de parar com o luxo de engatinhar
Aqui quem não corre não mama

E aí colega, como você está?
Eu não estou, não. Pode deixar recado.
Quando eu puder eu respondo, atrasado
agora eu não posso ficar nem dez minutos
nessa terra de fartura, excessos e absurdos
de feelings, insights, out-doors e hot-dogs
A ponto de deixar qualquer sensibilidade exausta
Com todos os cheiros da sempre mesma fumaça
As cores, sabores como os de ontem, os de antes

A miséria grita, inescrupulosa,
os barulhos dos carros não deixam a cidade escutar
A cidade excita, promíscua,
Com nome de santo, mesmo sem cara, sem par
A noite ensina, inelutável,
Ensina humildade a quem nunca sabe se vai voltar
A multidão gira, indiferente.

O tempo mata o pai e cria o filho
A cidade nunca pára o seu caminho
Nada é fácil, nada é simples nem permitido
Aqui é São Paulo, um dia normal é proibido

Thiago Scarelli


Queria eu ter encontrado tradução tão perfeita como essa para a metrópole de todos os dias. Meu amigo, poeta e jornalista foi capaz de escrevê-la com tal maestria que não me resta opção se não publicar seu trabalho aqui e concordar com cada palavra sobre a cidade em que sobrevivo, onde um dia normal é proibido. Hoje não foi nada normal, e só tenho seu abraço na memória. Ele veio na hora certa, na hora de conter as lágrimas e soprar um ar de esperança dentro desse caos.

01:56

 
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