Fórum das idéias e textos que surgem na minha cabeça em momentos variados. Textos de todos os tipos que traduzem a minha natureza de escritor à linguagem visual.
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terça-feira, junho 17, 2003 Cem toneladas de solidão
Um pesadelo nada mais é que uma constatação do peso do mundo, do peso da existência, as toneladas que o viver nos impõe. Então a arte, partindo do inconsciente, tem como principal objetivo aliviar a dor desse peso, o peso dessa rapidez, dessa incompletude frenética, calor desumano e sede insaciada que vem do nosso fardo do dasein. A arte serve para introduzir leveza no peso do viver, as toneladas do cotidiano sem tréguas, sôfrego em sua fricção. Assim toda arte tem função, tem propósito, inclusive a arte pela arte, que tem como objetivo apenas a introdução dessa leveza. O homem toma a arte como espada no combate ao pesadelo da pesadez da vida mundana.
Italo Calvino incluiu em suas Seis Propostas para o Próximo Milênio a leveza. Disse que a literatura de todas as épocas tentou tratar o mundo com leveza, desde Ovídio em seu retrato do combate entre Perseu e a Medusa. Perseu, com seus sapatos alados, apoiou-se no que existe de mais leve para combater o pesadelo das cabeças de serpente e olhar petrificador. Então Perseu conseguiu matar a Medusa olhando apenas para seu reflexo no escudo, evitando olhar para aquele pesadelo fabricante de mais pesadez. Assim fazem os artistas, evitam o olhar direto, clínico, dissecante. O artista olha de soslaio, olha de maneira indireta para o desenrolar das toneladas de concreto do mundo real.
Então assim eu olhei para as rosas espalhadas por toda parte no dia dos namorados. O cinza chumbo da Baixada do Glicério, onde se refugiaram migrantes em desespero, era desolador demais para beber de um gole só. Precisei fragmentar todo aquele peso com um olhar indireto, um olhar para o escudo que são as palavras formais, o intelecto à mostra e a camisa de jornalista.
Falei com os padres que davam abrigo aos fugitivos como jornalista, desempenhando um papel socialmente demarcado, denunciado pelo visual e, portanto, servindo de separação. Entre mim e o interlocutor sempre um caderno de anotações, uma máquina fotográfica. Tudo para não permitir minha inserção como igual, como pessoa no peso daquela realidade. Consegui manter-me na superfície de tudo aquilo. No pátio do albergue, fotografei as flores sob aquele sol de fim de tarde, usei como pano de fundo a torre da igreja, o peso do concreto em contraste direto com a leveza das pétalas. E vesti mais camadas de separação, pus meus óculos de olhar indireto, tive que intermediar o olhar.
Subindo a Rua dos Estudantes naquele começo de noite, contive o desconforto sob os olhares pesados daqueles acostumados ao negrume noturno da Liberdade atendo-me com força aos resquícios de leveza, primeiro a moça que me chamou de “meu anjo” para indicar onde ficava o metrô e depois a vermelhidão de tantas rosas espalhadas pela Praça da Liberdade, em beleza e sintonia perfeita com as maçãs do amor no dia dos namorados.
Então quis meu mundo mais leve ainda. Quis uma paixão para preencher um vazio que me persegue, um vazio que pesa como o concreto dos cortiços na Baixada do Glicério. Num mundo mais leve, eu compraria aquelas rosas reluzentes como o caramelo das maçãs. As compraria e na estação de meu destino haveria uma paixão, esperaria meu amor a quem entregaria como símbolo de amor as rosas mais vermelhas, mais vivas e perfeitas. Não faltou a vontade de comprar as flores, faltou o amor a me esperar numa estação qualquer do metrô, faltou quem daria asas ao peso desse vazio.
Então a solidão pesa mais que todo o concreto da cidade, mais que a catedral e o Municipal e o Copan. A solidão caiu com todos os pilares e colunas em cima de um sofrimento relâmpago. E a dor pesou como o mundo, e pesa com cada volta que ele dá. E me falta descobrir como não olhar para a solidão direto nos olhos, não há como intermediar meu estar na solidão mais absoluta, ela já me engoliu com todos meus disfarces. Não sei como vesti-la de leveza porque ela pesa demais.
Penso então que só o escudo de uma paixão me daria um reflexo distante da solidão, um reflexo que eu pudesse olhar sem medo, um reflexo instaurador de leveza, que faria menor o peso avassalador da solidão mais desesperadora. Então eu quero só o fim do pesadelo da solidão, porque ela pesa mais que a fricção das toneladas do cotidiano.
E talvez isso seja uma súplica.
Porque nessa cidade com nome de santo, ninguém olha por nós.
May I? Step into the light. Produce. Flow. And so I want to walk along the beach, stretch out to the pier without fear of getting lost in a narrative, without fear of the rage of the ocean and the roaring star light and the giant moonbeams.
And so I want to walk free, unrestricted. Want peace of mind, inner strength, undaunted devotion to the will of my spirit. I want to get lost somewhere by the sea. Because we will meet and we will go to Salvador. Storm of laughter and red darkness to shroud the turmoil of my eyelids. Profusion of thought waves to guide me through the tunnels of the city in her presence of warm silver and green eyes like ocean waves and mockingbirds in the paradise of a jungle. Because we will be together in this land of love.
Love is all I can think to her in my desire to swim in her mind, take hold of her hand as we walk along the pier over the raging waters of the sea at bay, fighting with the jagged rocks, as we watch the flutter of the white sails float past the sparkling shoreline under the streams of sun and later the glows of thunder and lightning. Love is all I can think to her as we see the rain rush over the sea, drops diving in to shatter the vastness of a beautiful rage. Love is all I can think to kiss her crimson lips glowing in the stormy weather of a rose drenched in the whiteness of the sails and the blue of the ocean's great throat.
Take my hand to dive into the sea. Take my hand to flee from the city that's calling us back. Allow ourselves to get lost somewhere else, get lost by the sea. Because we are going to Salvador. Let's hear the murmur of the ancient shipwrecks, walk on the seashells of indestructible passion, dwell on the strength of the waves, the undying light and wings of the sea gulls. Allow us to pursue the remnants of dream lingering over the break of each wave and grain of salt. Stop, stand still. Watch the sails pass by once again. Feel the wind sing a note or two. Walk again. Run, run away. Dive into the sea far from the cries of the city. Dive away into eternity, because love is all I can think here down by the sea.
E il naufragar m´è dolce in questo mare. - Giacomo Leopardi