Fórum das idéias e textos que surgem na minha cabeça em momentos variados. Textos de todos os tipos que traduzem a minha natureza de escritor à linguagem visual.


























 
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EU SOU
idéias em construção
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felicidade maravilhada
sensibilidade voraz
comunicador por excelência





























meus olhos têm telescópios que enxergam mil metros longe de mim
 
segunda-feira, junho 30, 2003  
Solidão

Contrastava com o vermelho dos tijolos o clarão dos pátios da Pinacoteca. De repente a luz caía como torrente de água a lavar a escuridão, matando todas as sombras. Não restava sombra nem dúvida onde eram banhadas pela luz as galerias adornadas daquele túmulo artístico.

Sem sombras estava também o vagão do trem antes do pôr-do-sol que lançava rosas e roxos a se alastrar pelo céu. Em cada ausência de sombra mora um leve desespero, já que o clarão abriga apenas semblantes de solidão.

E o céu de São Paulo, roseado pelo sol e quebrantado pelo mosaico estarrecido das janelas do vagão era como a tela do pintor gaúcho. Iberê Camargo, chegando ao final de sua vida, não pôde conter a contínua vontade de refletir sobre o mais eterno dos sentimentos humanos, a mais cruel, persistente e inevitável de todas as emoções. Iberê lavou uma tela de solidão, lavou com muita luz, luminiscência, luminosidade desvairada, enraivecida e mercenária. Não restou sequer uma sombra para abraçar os vultos em azul. Transitavam a fitar o nada no falso abraço da luz rosada, pura e crua, eliminando todas as formas, lançando à indistinção todo o mundo daqueles vultos, assim como enxergou o alvorecer do próximo milênio antes de morrer. No mundo dos clarões, todos vão nadar na tepidez enganosa de uma luz sem escrúpulos, que varre indiscriminadamente do plano da existência todas as sombras, abraços de conforto.

São espantosos os clarões também nos ministérios de Orwell e no calor glacial das luzes ofuscadas de Paul Thomas Anderson e seu homem de terno azul em sua loucura. Como constatou também Iberê Camargo, existe algo de desesperador no aclaramento das sombras. Sem elas, tudo perde a forma, tudo se esclarece de maneira tão abrupta que é impossível realizar qualquer distinção entre um e outro, original e reprodução, falante e interlocutor. O mar de luz apaga diferenças e lava de uma certeza assustadora toda a existência, demarcando com frieza as distinções tão inexistentes quanto a fugidia sensação de não estar só.

No clarão, impossível não afundar na luminescência da morte das sombras, impossível não contemplar o profundo abismo do indistinto.

Sempre a luz pesa mais e então é preferível a vida da tempestade à luz incandescente do sol. O ardor das sombras em lampejo denuncia a mais absoluta solidão, o mais agudo sofrimento. A alvura do clarão alerta que onde antes parecia estar alguém assistindo a tudo e tudo compreendendo não há nada mais que nosso próprio reflexo atônito, branco de medo e desencorajado de tudo.

Os vultos de Iberê dançam num solipsismo fantasmagórico, privados do manto acolhedor da escuridão e por isso prestes a dissolver-se na liquidez do rosa azulado. A luz nesse tom é anestesia para a brusca transição sem retorno à cegueira da claridade que desorienta ao confirmar a solidão e a inutilidade que permeiam toda a vida. Nos vultos, escuros apenas alguns traços perto da cabeça que relutou a entregar-se à mais clara e desoladora certeza. Uma fina rajada de vermelho, como último suspiro de paixão, atravessa um deles antes que se afunde no rosa.

Os vultos desmoronam com o peso da luz e perdem a forma, assim como tudo e todos na languidez da queda no abismo. A luz mais forte só pode induzir à cegueira, pois ao tudo revelar tudo encoberta, deixando a amarga certeza de que estamos sozinhos, lançando olhares desesperados ao nada na falsa esperança de em qualquer resquício de escuridão e sombra encontrar um último olhar de compreensão, compaixão ou piedade por um destino traçado rumo à luz mais brilhante e ofuscante e à ausência de todas as sombras. E a luz sempre vence. Não adianta lutar e é melhor abrir a porta e as janelas de uma vez por todas, enquanto alguns chamam o abraço das sombras de paz do desconhecimento, enaltecendo inutilmente o mais efêmero dos momentos que é esse abraço.

As figuras se aproximam e se afastam lançando um último olhar para nunca mais. E uma luminescência terminal banha o espaço, sem deixar sombra alguma. A luz dissolve todos os limites do espaço, nada mais se define com firmeza e um rosa azul líquido inunda o quadro onde três figurars resistem no último reduto da individuação que são seus rostos escalavrados. - Paulo Venâncio Filho

Debruço-me sobre este misterioso poço, insondável, que existe em cada homem. - Iberê Camargo

È piacevolissima e sentimentalissima la stessa luce veduta nelle città, dov´ella è frastagliata dalle ombre, dove lo scuro contrasta in molti luoghi col chiaro, dove la luce in molte parti degrada appoco appoco, come sui tetti, dove alcuni luoghi riposti nascondono la vista dell´astro luminoso. A questo piacere contribuisce la varietà, l´incertezza, il non veder tutto, e il potersi preciò spaziare coll´immaginazione, riguardo a ciò che non si vede. Osservo che il piacere della varietà e dell´incertezza prevale a quello dell´apparente infinità, e dell´immensa uniformità. - Giacomo Leopardi

Who needs the sun, when the rain´s so full of life? Who needs the light, with the darkness in your eyes? - Herbie Hancock

22:19

domingo, junho 29, 2003  
Calado / Felicidade

Aconteceu. Aconteceu e eu não posso contar, não posso falar, externalizar. Aconteceu o que eu muito queria quando eu menos esperava e não pode ser real, parece não ser real por parecer manter-se nos meus sonhos. De que vale a experiência se não é possível compartilhá-la? É difícil a contenção de relatar uma felicidade experimentada, da experiência surreal de um desejo realizado. Vale, porém, a memória interna dessa experiência, nem que sirva apenas para consolação, consolação nas tardes frias e chuvosas. Tem-se pelo menos a memória daquele dia dos desejos realizados.

A estranheza vem de arrancar de um sonho e pôr no plano do real aquele ato vivido tantas vezes e tantas vezes re-vivido sob tantas e tantas nuances no plano dos desejos, aquele delírio ideal da realização mais perfeita de um querer e dos quereres.

Então vivo com a luminosidade irradiante dessa transição entre sonho e realidade, e ela só pode deslumbrar como morangos de vivíssimo vermelho sob o fino abraço do mais doce chocolate. Preciso de carvão e seu pretume para registrar no branco das folhas da memória todos meus desejos realizados. O carvão é para não deixar esquecer que aquele foi um dia feliz. A dúvida persiste no saber se a realização do desejo é mais completa se ela pode se externalizar, se ela vale mais por ser escrita preto no branco e reescrita em concretude. Talvez valha o mesmo, mas a concretude das palavras preto no branco, do lance ao domínio público de uma experiência é ainda sedutor, tanto quanto a própria realização de um desejo.

Essas são palavras tortas que desejam mascarar uma vontade louca de gritar aos quatro ventos como estou feliz, como estou tomado por uma esperança e uma vontade de futuro e amor e paixão. Mas jurei, jurei que manteria secreta a razão de minha felicidade e assim será, mas talvez, com esse grito sufocado, eu possa me conter melhor.

E hoje e ontem foram dias de bossa-nova, cinema, arte, café e as luzes da cidade vistas de óculos de armação negra e cachecol vermelho no pescoço. E foi belo o mergulho desses dias no mar da metrópole. Aliás, há quem concorde comigo que o som dos automóveis na avenida é como o som das ondas do mar.

E esse texto é um impulso gerado pelo gosto do chá que bebo agora e a maciez do papel e a voz de Maria Creusa e Vinícius e as palavras de uma Buenos Aires distante. E me perco em devaneios ao saber que em dias estarei em Ipanema a procurar a garota, no Rio a procurar o menino e depois no fundo azul do sol mais doce de sal do mar em chamas de velas brancas endoidecidas na brisa mais veloz, sorriso errante.

Sinto voltar a serenidade para dentro de meu peito, mesmo com as trovoadas da cavalgada urbana e os faróis de cegueira. Busco abolir a decepção para viver na sedução eterna de uma bossa nova ou cantiga de roda vermelha.

Você que é feito de azul, me deixa morar nesse azul. - Tom Jobim

14:17

 
Nineteen Eighty-Four

And it was a world of absolute death, death in living, death in doing, death in loving and breathing and walking. There can be no happiness in fearing a watchful eye of awful punishment and glaring doom.

Glaring are the lights of the ministries and the fear in the fever of loving. Glaring are all the impossibilities in continuous destruction and dismantlement, inhibitors of initiative.

London was an effigy of glaring oppositions, all in contradiction. It hurt to have no past, to be sheltered from intelligence, to have no future in light of losing all possibilities of comparison. Orwell arrested progress, frustrated Marx in killing the dream of a revolution that would sweep away the stifling of free will, then stultified by fear of denunciation to the wrath of Big Brother. Orwell´s apocalyptical grasp of London and Oceania in a dominated world is a frustration of Marxist hopes for a better world of human behaviour permitted and intervention allowed.

Sad is the frustration of that dream and the realization of being stuck in a vicious cycle of oppression and quelled rebellion and more oppression and slight structural oscillations that only helped strengthen and intensify the darkness and black absorption of a doomed world moving towards madness.

Orwell thought the world would end up dying and it may well have been 1984 or any other number of a year, since there is no past, since no history was left to tell the story of how it was and used to be and could be made better. Orwell killed all hope for a better world. All is dead under the omniscient gaze of Big Brother. All is dead when we meet in the place where there is no darkness. Unfortunately, things are getting lighter and lighter in this most awful glare.

Everything faded into a shadow-world in which, finally, even the date of the year had become uncertain. - George Orwell

00:07

 
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