Fórum das idéias e textos que surgem na minha cabeça em momentos variados. Textos de todos os tipos que traduzem a minha natureza de escritor à linguagem visual.


























 
volte ao passado
<< current













 

EU SOU
idéias em construção
pensamentos fugidios
curiosidade encarnada
vontade delirante
devoção convicta
ironia escancarada
extravagância desmedida
loucura contida
felicidade maravilhada
sensibilidade voraz
comunicador por excelência





























meus olhos têm telescópios que enxergam mil metros longe de mim
 
domingo, julho 20, 2003  
Ouro Preto

Na cidade onde as ruas são de pedra e os santos de cedro tem um café, onde venho lembrar as cores daqui. Aqui tem cadeiras de palhinha, mesas de mármore, luzes exuberantes e muita cor e muito jazz. Venho aqui para tragar em momentos de perfeição a beleza de tudo e todos que se perdem e nascem nessas ladeiras de pé de moleque.

Cada momento tem um charme, um esplendor como as ladeiras banhadas em sol ou as fachadas ao luar no frio das noites de inverno.

Agora tomo chá, mas acabo de beber um café e Sonya está deslumbrante em azul tomando seu chá vermelho diante da parede rosada, mãos repousando sobre o marfim da mesa. Então essa perfeição em tudo justifica o olhar atônito das figuras fantasmagóricas de Aleijadinho. Aqui tem o sonho de São Francisco de Assis na escultura viva do mestre sepultado e então aqui tem a devoção mais devota, mais viva de todas à beleza, à arte, e ao sonho, como a leveza das bolhas de sabão a flutuar pela Praça Tiradentes no sol de uma tarde de samba e as rodas de rodas.

Bolhas de sabão e a pedra sabão. Leveza e pesadez em harmonia como as faíscas endoidecidas dos facões no meio da roda de capoiera e as rajadas do berimbau e a beleza gritante daquela pele negra, preta, preta, preta na brancura do sol do meio da tarde e as bolhas de sabão e os olhares dos fantasmas de pedra e o movimento das esculturas e das rodas e as vozes de veludo e as rezadeiras nas janelas e o fulgor do ouro das minas e a água dourada jorrando das pedras e o chá vermelho e as pedras azuis e o frio da manhã na tepidez da tarde e as crianças e o preto e o branco e o preto e o branco e o preto e o branco e as cores, as cores, as cores e os olhos, olhares no sonho de São Francisco e as paixões dos escravos, que construíram igrejas de ouro e devoção e alforria, e as paixões de Marília, a suspirar pelas pontes, e as fontes e as estórias e os túmulos e os cemitérios e a lua e o orvalho.

Não consigo encontrar verbos para preencher as lacunas entre uma impressão e outra. Preciso de conjunções simples e brandas para fundir todas essas experiências numa só sensação de bem-estar e fascínio deslumbrado que embala todos os momentos aqui.

Então digo que aqui tem arte, aqui tem samba, aqui tem jazz, aqui tem músicos e atores e chá e café e ladeiras e tudo tão incrível e reluzente.

Cada pedaço daqui é sozinho um fragmento da mais pura beleza, o mais tocante esplendor. Mesmo isolado de tudo, esse fragmento reluz como o ouro em pó, os dentes brancos do menino preto e as estrelas nas noites sempre estreladas daqui, sempre um momento deslumbrante sobre tudo e as paixões. Aqui desperta paixões, deixa viver um espírito sufocado na metrópole, uma vontade de gritar, de falar, de andar, de esquecer, de brincar, de sonhar. Sonhar como São Francisco numa liberdade esvoaçante e maravilhada, sem esquecer as armas de São Jorge. Aqui é possível ser e estar ao mesmo tempo. Aqui a saudade se perde na vontade e os desejos realizados, aqui nada se cala. Tudo ecoa nos gritos de cada passo ladeira acima, cada batuque no pandeiro, cada corda de blues e sopro de jazz. Aqui ecoa uma adoração profunda.

A religiosidade daqui vai além do cedro e o gesso dos santos e as missas nas naves douradas. A religiosidade daqui tem um compromisso com a fome de viver, de beber cada gole de cor da vida, de contemplar o preto no branco e o mosaico do ouro e o sol nas pedras, caminhos de pé de moleque e os sorrisos dos meninos. Como o disse o homem da caverna, delirante em sua nudez, melhor é trucidar uma criança no berço que acalentar desejos que permanecerão longe de qualquer realização. E esse povo nessa cidade parece concordar, mesmo na sombra das sacristias e do sonho de São Francisco de Assis e os metres sepultados.

03:31

 
A abelha e a picada

Mergulhamos num novo mar de incertezas, o mapa a ser escrito novamente na cabeça. Saímos da estação com conselhos, avisos, tudo para não ser assaltado, assustado.

Atravessando a multidão do começo da tarde, chegamos ao Mercado Central - brasileiríssimo. Tudo eram montanhas de queijo fresco, cachaça e feijoada, brasileiro como as ervas da Amazônia em abundância. Então, açaí na tigela em Belo Horizonte. Esfriou bem os nossos corpos.

Mais andanças e passos e desvios e demos uma olhada no Centro Cultural, nada demais exceto um simpático café ao ar livre escondido num pátio atrás da biblioteca.

A caminho do Parque Municipal e seus marrecos, fui picado por uma abelha. Sei que foi rápido e doeu e não parou de me tormentar enquanto assistia com Sonya ao jogo de futebol dos meninos no parque.

Tentei ver uma exposição no Palácio das Artes, mas a abelha e sua mordida não me deixaram em paz. Subi mais uma das profusas ladeiras de Belo Horizonte e cheguei ao Pronto Socorro - enfermeiras e médicos descontraídos e doentes que multiplicavam a cada segundo.

Minha enfermeira, a Baiana, levou-me à toxicologia, onde uma médica e uma dezena de estagiários me observaram atônitos, talvez porque minha sã aparência não revelava o fogo daquela mordida fugaz. Meu medo não é uma dor que me tormente, mas uma reação que possa desfigurar-me. Não importa a dor.

Baiana falou entusiasmada das cidades históricas, descreveu com paixão Ouro Preto e mais ardor ainda Congonhas do Campo, a cidade dos doze profetas de Aleijadinho que parecem cair ladeira abaixo.

Sonya está cansada. Estamos cansados de correr de cidade em cidade, mas tem sido bom, interessante e a cada nova pessoa uma idéia. Descobri que viajar me fazia muita falta mesmo com a eventualidade de ser picado por uma abelha. Viajar não é ver monumentos, é conhecer as pessoas dos monumentos, aquelas que vivem deles, ou aquelas que só vivem. E desses últimos há uma galeria inesgotável: o cobrador de ônibus em Brasília, que conhecia os hábitos do presidente, o guarda que vigia o túmulo de Juscelino Kubitschek, o candango do Panteão, que ficou horrorizado com minha proximidade ao vitral, o estagiário do Ministério da Saúde que ofereceu levar-nos a Alto Paraíso e Pirenópolis, a monitora do museu apaixonada pela exposição fotográfica de então e agora a Baiana e seus enfermeiros operando no coração da cidade, a poucos metros do Palácio das Artes.

Vamos conhecer, fotografar e escrever não os monumentos, mas as pessoas dos monumentos. E essa picada não pára de me tormentar com suas ferroadas constantes e ardentes.

03:05

 
Planalto deserto

Prevalece a impressão de estar num deserto onde cada contato humano vale por mil beijos e abraços tamanha é a desolação desse lugar de grandes espaços abertos e prédios singelos de simplicidade e arrojados de audácia.

Aqui a terra é vermelha e o céu é azul com poucas nuvens. Mesmo no inverno o dia foi quente e tudo brilhou no deserto sem pessoas. O verde dos ministérios brilhou em harmonia com o verde retalhado do cerrado, o azul do céu espelhado em todos os espelhos d´água de Niemeyer.

Caminhamos até a torre, onde pudemos ver a cidade do alto do mirante. Banhada no sol do meio-dia estava a simetria mais completa, mais harmônica e mais estonteante da Esplanada dos Ministérios, sendo exceções apenas o Teatro Nacional e a Catedral Metropolitana.

Não consegui me acostumar com as pessoas daqui. Todos parecem estranhos, indiferentes ou arredios. Os primeiros contatos mais positivos foram com soldados em frente ao Palácio do Itamaraty, que explicaram um pouco da rotina da capital federal.

Os contornos toscos e desajeitados da recepcionista do albergue, que escondiam de maneira inquietante os seus olhos, não ocultavam sua graça e simpatia.

Os soldados do Itamaraty e a recepcionista do albergue foram figuras de alívio num dia amanhecido na alegoria de miseráveis e deficientes estirados pelas plataformas da estação rodoviária. Aqueles que não sofriam de doenças degenerativas denunciavam no olhar uma natureza torpe e enganosa, e por isso o planalto, à primeira vista, pareceu tão morto e assustador.

A primeira impressão, porém, talvez seja a que fique. Talvez sempre lembrarei Brasília como a capital torpe da morte, da desconfiança. A primeira imagem daqui foi tomada pelo aspecto lúgubre de um vagão de trem desativado, tombado sobre os trilhos enferrujados, a ferrugem afundando na terra vermelha sob o sol escaldante a raiar só na imensidão do céu azul.

Então ficou o contraste, o contraste completo entre a decrepitude da fétida estação rodoferroviária e seus miseráveis desvalidos a queimar no sol do meio-dia e políticos engravatados falando ao telefone na rampa do Congresso Nacional, iluminada pelo fulgor azul dos espelhos d´água de Niemeyer, que fazem mímicas de céu.

Agora uma lua gigante e dourada passeia pela Esplanada, sua grandeza avultada e exacerbada pelos holofotes do Eixo dos Monumentos e o olhar sóbrio das estátuas da catedral e o peso dos sinos inertes. Agora parece mais iluminada e viva do que nunca a capital federal, as luzes a preencher o vazio do cerrado distorcido.

02:46

 
This page is powered by Blogger.