Fórum das idéias e textos que surgem na minha cabeça em momentos variados. Textos de todos os tipos que traduzem a minha natureza de escritor à linguagem visual.


























 
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EU SOU
idéias em construção
pensamentos fugidios
curiosidade encarnada
vontade delirante
devoção convicta
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extravagância desmedida
loucura contida
felicidade maravilhada
sensibilidade voraz
comunicador por excelência





























meus olhos têm telescópios que enxergam mil metros longe de mim
 
sábado, agosto 23, 2003  
Velocity (in red)

And the world seems faster, moves faster, lights up and down. Trace it back to when I last needed a foreign language to express myself, satisfy the hunger of each insane fibre of my mind. Remember and reminisce.

I remember the tango and the fast flowing dresses. I remember how I drove fast and the snowflakes flew by and the stillness of the ice made every movement feel so much faster.

Let's drink reality and swallow passion that triggers even more senses. Why is it I need my arsenal of tongues? I need to lick my thoughts with the speed of an electric current, so they don't dry into forgetfulness. I must lick them with the wetness of my thirsty tongue and then more tongues.

Through the glass, everything looks so fast, feels so fast, glides like the stillness of the ice and the unbearable lightness of projectile words speeding through merging connections of neurons and airwaves and rails.

Machines are fast like what can't be done. The mechanics are like the appearance and disappearance of a crazy desire. Relentless pursuit of the cold in the tropics of heat, where it's hot in the winter.

I must feel like a super-hero to take on the world full of flight and the lashing tongues of taste and meaning. I am a super-hero in my metropolitan techno-hype-lace-trigger-machine-circuit-current-light-darkness-and-Babel disguise of red like fire.

She said her love was red and didn't write it down. Burn the words like red, like in Plato's dream, expel all the poets. The world screams too much poetry to have lives devoted exclusively to this meaningless and useless translation.

Advance, speed into new order feeling the tongues of thought in convoluted watery breezes of mercury.

My love is red, it's so red. I've let it cling to my heart so it can attract more passion to my emptying hollowness in the jungle of fiery machines. How lovely can it be to feel it in red?

Give me yet one more tongue to baptize and castrate and write and compress and expand and masturbate and fornicate and annihilate. Crimson like a machine, industrial like post-modern passion in the fierce bites of all ivory teeth in clamour as they roar endlessly to the sinking of the sun. Catch it before it falls where it can't be retrieved. My tongues are burning.

Rompió mi corazón cuando dijo adiós sin razón. Mi corazón, mi dolor no puede ser mayor. Le quiero, le odio. Me han dejado un tigre en el corazón que no puede irse. Adiós. Adiós, mi amor. - Zimpala


03:18

quarta-feira, agosto 20, 2003  
O Espelho e a Alma

Tenho medo de olhar no espelho, especialmente de manhã. Tenho medo daquilo que uma noite mal dormida pode fazer com a aparência, a pele, os cabelos, os olhos. Tenho medo de olhar-me no espelho nos dias de frio, quando sei que meus lábios estarão rachados. Tenho medo de olhar no espelho por todo tipo de vaidade. O espelho é um veneno. A sorte é que existem artifícios para atenuar a imagem que me espanta quase sempre em sua crueza glacial.

Minha felicidade vem de saber que além do que o espelho pode refletir, não posso ver nada. O reflexo de minha alma será sempre encoberto pela feiúra ou beleza ocasional e artificial refletida pelo vidro. Mas Oscar Wilde imaginou uma pintura maligna. Na febril vontade de sempre conviver com a beleza sedutora e superficial do espelho, Dorian Gray pediu que a pintura fosse o retrato de sua alma e as verdades da vida. Dorian Gray gozou da felicidade de um semblante perfeito, a conveniência de uma aparência irretocável, a permanência da juventude.

O preço pago por Dorian Gray foi a assustadora e desalentadora possibilidade de ver os estragos que em vida causou a sua alma. Viu ruir o semblante perfeito, rachar, desmanchar e amarelar a porcelana de sua pele, desviar-se os contornos perfeitos de seus lábios e olhos, esvoaçar-lhes em loucura e desgaste os cabelos antes dourados.

Não sei se hoje tenho coragem de ver a pintura de minha alma. Não sei se os tons azuis e vermelhos estariam onde deveriam estar, não sei se o rosa líquido da solidão já teria afogado tudo, não sei se o negro tudo corrompido, o brilho ofuscado, as linhas de leveza distorcidas pelas toneladas de natureza humana. Não quero ver o retrato de minha alma.

Dorian Gray não só tinha o retrato em sua casa, como também conhecia o pintor da obra, conhecia o autor da maior desgraça em sua vida, o único peso capaz de quitar-lhe a leveza do viver. Dorian não foi forte, Dorian não suportou o peso daquela feiúra, mesmo que permanecera intacta a beleza de cada traço de seu rosto. Amante da arte, Dorian não admitiu a feiúra em nenhum canto de sua vida. O artista vive de beleza, e Dorian não podia ter nenhum resquício de feiúra a ofuscar-lhe o rosa de sua percepção do mundo.

Então Dorian mata o pintor de sua alma, artista que retratara de início apenas sua beleza esplendorosa e momentânea. A golpes frios, facadas certeiras, Dorian matou o pintor. Mais tarde, descobriu ainda mais traços de feiúra em seu retrato agora adornado com manchas vivas do sangue mais vermelho.

Quebrar um espelho não acaba com a existência e realidade de uma imagem perturbadora. Mesmo dispersa em cacos, a superfície refletora ainda reflete e multiplica a feiúra impossível de se esconder. Mesmo esmiuçados os cacos, não é possível destruir todos os espelhos do mundo. Sempre existe algo ou alguém que tomará prazer em jogar-lhe na cara o peso da realidade, apedrejar-lhe com estilhaços de verdade. Os espelhos se multiplicam na vida como as imagens que reproduzem em seu mar infindável de luz desgovernada.

O assassinato do pintor foi para Dorian a vã tentativa de acabar com um espelho, mas fracassou porque a obra do artista o sobrevive. A pintura continuou como espelho a ecoar as desavenças do pintor e a reproduzir a feiúra da alma de Dorian Gray. Ele quebrou apenas um dos espelhos em sua vida. Acabou com a feiúra de sua alma ao assumir na morte a feiúra que já alimentara em vida. É quando Dorian acaba com o retrato que este acaba com ele, sendo estridente o grito, este que estilhaça todos os epelhos, que só na morte escapamos da feiúra de nossas almas corrompidas ou somos de vez tragados por ela, corpo e tudo. Nenhuma beleza resiste à corrupção da alma.

Rogo agora apenas que cesse a sensação de escrever olhando para um espelho. Todas as minhas palavras parecem feias. Ainda não encontrei um espelho que reproduza a beleza e não acentue a feiúra. Aguardo o grito que estilhaçará todos os meus espelhos, mas fujo desse grito com o mais selvagem de todos os apetites do homem - o desejo insano e febril de viver.

He himself could not help wondering at the calm of his demeanour, and for a moment felt keenly the terrible pleasure of a double life. - Oscar Wilde


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