Fórum das idéias e textos que surgem na minha cabeça em momentos variados. Textos de todos os tipos que traduzem a minha natureza de escritor à linguagem visual.


























 
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EU SOU
idéias em construção
pensamentos fugidios
curiosidade encarnada
vontade delirante
devoção convicta
ironia escancarada
extravagância desmedida
loucura contida
felicidade maravilhada
sensibilidade voraz
comunicador por excelência





























meus olhos têm telescópios que enxergam mil metros longe de mim
 
sexta-feira, setembro 26, 2003  
Fragmento de Arthur Miller / Death of a Salesman

Não tinha nem afrouxado a gravata. Saíra do Frank´s com apenas uma idéia na cabeça. Passou no primeiro lugar que viu aberto aquele anoitecer e comprou as sementes de que vinha falando já havia um tempo.

Em casa chegou vermelho de ódio e azul de tristeza, uma rapidez afoita nos passos. Beijou a angústia no semblante da mulher que passara o dia esperando qualquer motivo de alegria. Já era tarde e a alegria não vinha.

Foi quando ele disse que ia plantar as sementes. Já era escuro e ele procurava desajeitado a lanterna.

No jardim, ele queria só o prestígio. Caiu de joelhos naquela terra fria, que ia se fazendo estéril no outono. Os dedos buscavam as sementes enquanto os olhos calculavam as distâncias entre cada verdura ou legume que nasceria ali.

Daquela terra nasceria o seu prestígio. Enfiou ávido na terra cada semente, sentindo o vento frio cortar a pele das mãos, do nariz e das orelhas. Esqueceu aquela dor para ver brotar no pensamento as mudas daquela plantação de desespero. E cada muda era um prova de prestígio, algo qualquer tangível para servir de legado.

Esqueceu por um segundo a fatalidade do momento e derramara na terra a luz da lanterna ao esperar que nascessem os primeiros ramos. Pela primeira vez, fez o que quis.

Chegou o filho pisando sobre as verduras em potencial, destruindo a horta. Agarrou pelos ombros e ergueu o pai sujo de terra da terra. A lua estava fininha, quase sumindo.

Então o filho disse que ninguém tinha pena do pai, que era para ele não tentar ser um herói. O pai queria ver nascer as plantas do seu jardim. O pai não acreditava que tudo era tão falso, o prestígio intangível quanto jardim morto imaginado vivo. Os dois entraram. A lanterna estava suja de terra, as sementes espalhadas pelo jardim e o velho pensando nelas.

Seus cabelos grisalhos se perdiam na auréola prateada da luz da cozinha. A mulher já era toda tristeza e o filho gritava. As sementes seriam varridas do jardim com o primeiro sopro de vento.

Mataram todo o orgulho e o velho foi morrendo ali, rasgando-se como os remendos descuidados das meias da mulher. Mais gritos e todos os sonhos acabaram. O filho foi embora e não tinha mais sementes no jardim.

Pegou o carro para se encontrar com a morte numa rua qualquer de Nova York, onde o asfalto não deixa brotar sementes.

12:21

 
Momento num Café – Manuel Bandeira

Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes na vida

Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade

Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta

12:20

 
Apologia à arte de Dalton Trevisan

O jantar para os dois casais amigos. Na parede uma das mulheres nuas de Modigliani.

Tanta festa, muito riso: o lombinho está uma delícia. Até que um dos maridos:

—Essa moça do quadro. Ela sorri para você?

—É o meu consolo das horas mortas.

A dona acode, oferecida:

—Ela sou eu, não é, bem?

Um murro na mesa estremece prato e espalha talher:

—Ela é você? Quando você teve esse amor desesperado nos olhos? Esse perdão infinito na boca?

Outro soco espirra vinho tinto na toalha:

—Não se conhece, sua bruxa?


12:19

 
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