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EU SOU
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meus olhos têm telescópios que enxergam mil metros longe de mim
 
sábado, outubro 25, 2003  
De olhos abertos

O dia que colocamos no barco o corpo de papai foi um dia azul. O lago estava azul, o céu estava azul. O frio que mordia eu e meu irmão também devia ser azul. Azul eram também as rajadas de vento e as ondas que faziam no lago.

Era muito pesado o corpo do homem que era papai. Eu e meu irmão demoramos muito para arrastá-lo pela areia até o limite da água. Tivemos que pôr papai sobre um galho de árvore que encontramos ali perto para poder levá-lo até o barco. O frio continuava mordendo forte e parece que um medo arranhava por dentro.

O corpo de papai insistia em ficar de olhos abertos. Não tinha mais vida, mas ele continuava fitando aquele imenso azul com olhos de abismo. Parecia que era para seus olhos abertos que estava escorrendo todo o azul do céu que se fundia com o azul d´água. Dava medo ver aquele azul tão forte perto do branco tão fraco da pele do corpo de papai. Até o vermelho de seus lábios já cedera ao azul opressor.

Papai não estava mais ali. Ele nunca esteve, mas seus olhos ficam olhando como janelas famintas. Elas querem recuperar o tempo que ele perdeu.

Foi tudo muito rápido. Ele estava tão vivo que era um machado afiado ameaçando cortar-me um braço ou perna. E de repente estava tão morto que era o peixe enorme que pescamos do casco do navio abandonado.

Foi meu irmão que correu para afastar papai de mim. Ele se zangara porque não voltamos do lago na hora certa. É que encontramos um navio abandonado e quisemos explorar. Depois mergulhamos na água onde estava aquele peixe enorme. Papai quis me matar. Doeu e meu irmão ficou com medo que papai fosse mesmo me matar. Então ele correu para a torre do farol. Meu irmão tinha medo de altura, mas subiu até o farol. Fechou o alçapão, não deixou que papai subisse.

Foi quando papai tentou subir pelo lado de fora, achando que meu irmão ia se atirar da torre, que ele caiu. Papai está morto e seus olhos não querem se fechar.

Meu irmão desceu do farol. Esqueceu a voz lá em cima. Papai estava lá na areia, morto de olhos abertos. Eu só dei ordens e meu irmão obedeceu. Tentamos fazer com que o corpo de papai também obedecesse.

Ficamos olhando para os olhos abertos do corpo de papai enquanto guiávamos o barco. Eu esperava talvez uma resposta, que ele despertasse de repente para morrer do jeito certo. Queria a despedida que não tive. Aquele homem ali era papai só porque mamãe disse que ele era papai. Aqueles olhos me engolindo no frio da morte são de papai porque assim disse mamãe. Já me impressionava aquele olhar desconhecido ainda com vida. Depois da morte, ele sugava ainda mais.

Meu irmão perguntou por que os olhos de papai continuavam abertos. Perguntou o que deveríamos fazer. Eu não soube responder.

Batemos numa pedra que fez um buraco no barco. Chegamos até a praia e conseguimos sair. Juntava as coisas com meu irmão quando percebi que o lago levara para longe papai e o barco. Ele afundou naquele azul de olhos abertos e tudo.

Tem agora as fotografias que tirei daqueles momentos com ritmo de chuva. Tem também os relâmpagos das tempestades que eu e meu irmão deixamos registradas num diário. Mamãe parecia tão feliz antes da viagem e papai nunca fechou os olhos, absorto no azul.

10:48

 
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