Fórum das idéias e textos que surgem na minha cabeça em momentos variados. Textos de todos os tipos que traduzem a minha natureza de escritor à linguagem visual.


























 
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EU SOU
idéias em construção
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comunicador por excelência





























meus olhos têm telescópios que enxergam mil metros longe de mim
 
quinta-feira, janeiro 29, 2004  
A dor

Meus dedos batem nessas teclas pra tirar um peso da cabeça, que vem há muito esmagando minha coluna vertebral, carregando meus pulmões e me tirando o ar. É um peso emocional, uma dor naquele músculo que eu nem gosto de dizer o nome. O pior é que essa dor não tem causa certa, é um olhar meio de soslaio, é uma palavra atravessada, um dia chuvoso, uma luz meio opaca. Então essa dor vem e congestiona.

Queria, com esse passeio dos meus dedos sobre o teclado de todos os dias, fazer um passeio da alma pelas ruas da cidade, pelas ruas alagadas de chuva refletindo as luzes dos postes cobertos com aqueles anúncios. Quero um passeio pra esquecer, desafogar e escoar as mágoas, assim como faz a chuva com toda a sujeira que entra pelos bueiros. Mas nem é tão fácil.

Na televisão tudo é tão lindo. Eles tomam o melhor café na melhor rua da cidade na melhor hora do dia com a melhor idéia na cabeça. Estão sempre apaixonados e o tempo nunca fecha e a chuva é motivo de alegria, o calor é uma desculpa pra celebrar alguma coisa.

Aqui faz um calor imenso, intenso. As roupas grudam no corpo, os olhos ficam mais lentos, a vista toda embaçada. Tudo parece submerso, a água escorre por todos os lados. Talvez seja porque as paredes aqui são de vidro e a tempestade lá fora é brava. A água cai e vai lavando tudo e alagando tudo, até que as lágrimas se fundem com a aparência molhada de tudo. E tudo acaba avermelhado, acinzentado.

E é justo quando a brisa demora pra chegar que vem aquela vontade louca de se jogar do andar mais alto, de correr sem rumo, só pra refrescar. Aquela dor e aquele peso que ela traz consigo sufoca tanto que só a queda mais veloz, a corrida mais desenfreada parece aliviar. Aí, depois de alguns segundos, tudo continua igual. Aquele sufoco e aquele calor voltam como as nuvens depois de uma trégua entre tempestades de verão. E dá vontade de sair correndo mais uma vez, de tirar as roupas, de se perder e se esquecer.

Mas não adianta, porque aquela dor não tem antídoto. E ela persegue até o fim, até um alguém puder te resgatar. Então mesmo perdido e pelado e esquecido, o calor prevalece e a dor que vai esmagando tudo também fica lá. Pra despertar, só um susto. Pode ser uma aranha que sai do escuro, um trem do metrô que, de tanto esperar, esquece que ele ia passar. Pode ser uma faca no pescoço, um revólver na cabeça. Chega uma hora que, depois da correria, é preciso um lembrete pra devolver a realidade do momento.

Alguém ou alguma coisa acaba resgatando quando já não se quer ser resgatado. Minutos antes da Boca do Lixo, segundos antes de ser atropelado. Essa dor que enlouquece e embaça a vista, só não é assassina porque nem todo mundo já perdeu o juízo e o bom senso. Acontece que mesmo esses que primam pelo bom senso só vão até certo ponto. Seria demais poder amar alguém. Amor é coisa de filme, coisa de televisão.

Então essa dor ataca de vez e pede pra ser engolida. Ela nunca leva alguém até o fim mais trágico de todos, só conduz quase até o fim pra querer afundar com gosto, descer ralando a garganta pra anunciar que está alojada ali, presa ali e não vai nunca ser escarrada. A dor é como uma cicatriz, porém interna e bem profunda, gigantesca o suficiente pra se pronunciar, gritar e paralisar quando a gente menos espera e menos quer. Mas ninguém tem que querer nada, a dor existe pra dominar, machucar e atordoar.

Porque amor é coisa de filme, de televisão, a dor se esconde como um vírus, manda ser engolida antes que ela saia pela boca, afoita, aflita. É ela quem se empurra goela abaixo pra fugir dos olhos de todos, que sabem que amor é coisa de filme, de televisão. Na vida real só pode existir mesmo o tesão.

23:39

quarta-feira, janeiro 28, 2004  
Pandora - Mariana Ianelli

Não importa dizer o que nesta cidade se passa: importa imaginá-la. De cada lugar, pressentir o outro lado. Aqui, como em toda parte, os olhos não são capazes da verdade. Vê-se as coisas do alto quando se as vê lá debaixo. Dobra-se uma esquina simplesmente num jogo de sorte. Ruas e praças, pontes e galerias são as inumeráveis passagens de uma só casa. Há um parque à sombra deste parque, um marasmo por detrás da força das máquinas. Nos totens do comércio, o sonambulismo da vida milionária. Entre dois bairros vizinhos, a distância de uma viagem. O corpo empresta ao espaço qualquer espaço de sonho e então a via suspensa sobre o coração da metrópole é agora a mais negra, a mais rígida, a mais desabusada pata de uma aranha. Assim acontece e não de outro modo: leva-se o nome das coisas na carne. O grande relógio, duração de um tempo ausente, a multidão de sapatos, razão de existirem as escadas, as mãos sempre trabalhando, barbatana, asa de pomba, haste que por muito pouco se parte: tudo que respira alimenta uma segunda realidade. Por cima de muros, bandeiras, antenas e telhados, eis a extraordinária mulher, disponivel para todos os homens. Onde quer que se esteja com ela, não convém perguntar sobre o seu passado - se outrora em vez de subúrbio um campo, se um cheiro de jasmim onde agora esta nuvem de fumaça. É preciso deixá-la à vontade, amá-la na sua forma cinzenta, no seu detestável calor de janeiro, na hecatombe de suas tempestades. E admitir sua cultura de pedra, seus pequenos delitos e crimes necessários, suas noites engaioladas, janelas e portas fechadas, o fogo alto nos tambores e em torno deles as crianças e os ratos, na palha o ouro, num farrapo uma capa de rei, no silêncio geral do sono uma palavra: a expressão da miséria em seu rosto contrário. Caminhos possíveis no mundo das calçadas: por se ter chegado ali naquele preciso instante, por se ter demorado um minuto apenas, por se ter preferido um atalho, produzem-se os desencontros ocultos e as fantásticas casualidades - uma troca de insultos, um primeiro pacto, a inesperada união de duas pontas de uma mesma história. Para amanhã e depois, ainda nada está pronto. Debaixo do sol de uma lâmpada, as paredes caem, as paredes se levantam. Fala-se: geografia do pensamento. Escreve-se para habitá-la.

16:04

 
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