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EU SOU
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meus olhos têm telescópios que enxergam mil metros longe de mim
 
quinta-feira, fevereiro 26, 2004  
A sala de espera


A sala de espera é uma biblioteca, às vezes labiríntica. Lá, uns passam o tempo lendo tudo, vasculhando entre páginas amareladas pelo tempo, tirando a poeira dos volumes de couro e mergulhando no convite dos papéis. Outros dormem. Dormem um sono profundo, sem perturbações. Alguns não lêem, mas tentam abrir uma janela, pra deixar entrar um pouco de luz, outros procuram algo pra refrescar. Todos querem beber de alguma fonte. Tem até uns que se perderam entre as estantes, mas não se interessaram pelos livros. Brincam mesmo é de se esconder por lá, protegidos pelas páginas valentes da história e das estórias.

Chega a dar vertigem. Os mais vorazes, febris e famintos com os conhecimentos ali depositados, sentem fortes dores de cabeça, um pestanejar incessante dos olhos cansados, dores nos dedos de tanto folhear as páginas. Uns acabam precisando de óculos e lentes. Outros cansam tanto que se tornam adeptos do sono, hibernam. E é difícil sentir a brisa. Não há relaxamento. Há tensão e medo. Medo de perder a atenção, deixar passar em branco. Tensão diante da descoberta de uma saída.

Uns tentam fugir mesmo pela entrada e não conseguem. Outros conseguem e não voltam mais. Outros queriam ter a coragem pra tentar, mas aguardam ansiosos pela saída verdadeira. Os bem afortunados, que descobrem uma janela grande o suficiente para permitir uma fuga precoce, fogem correndo.

Daqueles que ficam esperando a saída da sala de espera, a vertigem vai tomando conta. E se sentem naufragar pouco a pouco. Parece que vagas vão mareando a vista, submergindo os volumes e as vozes, deixando transparecer sob um manto vítreo, porém turvo, apenas alguns nomes de alguns que foram importantes em algum momento. Mas tudo já é vago. São as vagas e seu veneno salgado de mar.

Aqueles que fugiram pela entrada se perderão para sempre. Não há retorno como não há esperanças de reencontro. São renegados. Os que saíram pelas janelas, antes da vinda das vagas, seguem vivendo. Têm sucesso, mas é um sucesso precoce e breve, tanto que eles vão tentar voltar à sala de espera, mesmo que seja pela janela ou até mesmo pela saída, agora tão nítida. Os que aguardaram a saída verdadeira, encontram certo sucesso. Não há garantias, mas valeu a pena afogar um pouco, mergulhar um pouco, esquecer um pouco, morrer um pouco.

A sala de espera é angustiante, mas guarda algo não encontrado em nenhum outro lugar. A sala de espera encerra toda uma esperança e vontade, que se dilui nas vagas mas não escoa pelas janelas. Lá fora, é tudo tão claro e tão nítido, que não resta a doçura de um mistério, nem o direito à languidez de estudante. A visão não é mais embaçada, as miopias são para sempre sanadas cedendo lugar a uma dificuldade cada vez maior para enxergar o que antes era tão claro e tão próximo. O sol brilha que dói. A poeira não assenta e as ventanias são constantes. Sempre parece ser verão. Tormentas só breves.

E tudo vira num labirinto uma grande fuga. Não há saída e não há retorno. Não há escuridão, não há incerteza, não há chance, não há fortuna, não existe o azar. E essa ausência tardia do azar acaba adornando com um fulgor quase lascivo as dantes tão detestadas teias de aranha da biblioteca escura e vaga.

Estou na sala de espera. Já li muitos dos volumes de uma pequena prateleira à esquerda da entrada e no começo das origens daquilo que eu comecei a conhecer. Quase tudo está em idiomas que eu desconheço, e o pouco que eu consigo entender está muito alto na prateleira ou já foi roído pelos ratos. Já procurei uma janela e não encontrei. Não tenho coragem de sair de volta pela entrada, mas parece que não me querem deixar entrar de vez no resto de tudo. Como estou preso aqui, já matei alguns ratos e me esforço pra entender até mesmo os idiomas desconhecidos.

Há muito que estou nas vagas. Sinto uma sede terrível e, por isso, não consigo nunca dormir um sono profundo. A garganta fica muito seca e os olhos muito molhados.

02:04

 
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