Fórum das idéias e textos que surgem na minha cabeça em momentos variados. Textos de todos os tipos que traduzem a minha natureza de escritor à linguagem visual.


























 
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EU SOU
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meus olhos têm telescópios que enxergam mil metros longe de mim
 
domingo, março 14, 2004  
Jornal de amanhã

E eu queria que fizesse tempo de café. Então choveu pra minha felicidade. Os planos de subir a Teodoro em mais uma tarde de garimpos urbanos se dissolveu n'água da chuva e sumiu pelos ralos do apartamento no sétimo andar. Os lençóis e cobertores, cochões e travesseiros cobriam o chão do quarto.

E no lugar do café, foi chá de frutas vermelhas. Pelo telefone notícias boas. E como sempre vinha a Folha. Foi tempo das palavras cruzadas da Ilustrada com frutas vermelhas, raios e trovões de congestionamentos de pés e rodas na terra da garoa.

E as horas passaram sem cerimônia, sem se anunciar. A vida ali naquele um ligeiro momento fora do relógio metropolitano foi doce e vermelha como o chá na caneca que ele segurava nas mãos. Ele bebia com as línguas dos olhos. O amargo do café ficava pra manhã seguinte.

Foi tudo Ilustrada na tempestade. O Cotidiano e o Dinheiro se perderam entre os lençóis e as cores já bastavam. Expliquei que aquele vermelho do chá era o vermelho dos meus contos. Ele disse com o sorriso mais largo e os olhos de repente muito sérios uma só palavra: carmesim. Não era vermelho, era carmesim a cor do chá e o que chovia na minha vida.

Lá fora mais pés e rodas e a Teodoro imaculada em seu banho de março. No sétimo andar, tudo calmo, carmesim. Teve aquele abraço que só ele sabe dar, teve as caras e bocas de um dia levado no coração, sentido até os fios dos cabelos. Teve a orquestra dos trovões pra pontuar a melodia ausente do jazz. Aquele dia, Chet Baker e Ella Fitzgerald vestiram carmesim numa Nova York nunca tão perto de São Paulo, do meu sétimo andar carmesim.

O dia virou noite e a chuva parou pra que as luzes da Paulista pudessem brilhar. Já passava das 21 e fazia 21 graus no neon do Itaú e São Paulo ia ter uma noite carmesim brilhante, nas condições atmosféricas adequadas.

Não queria dormir. Queria ficar acordado até de madrugada pra esperar a Folha de amanhã. Ela ia trazer um gosto de café, o roteiro dos cinemas e meu apartamento nos Jardins. O dia se esgotou em função do próximo. Precisava fazer mais uma cruzadinha, tomar mais um copo de chá, assistir à chuva caindo sobre os guarda-chuvas e ver tudo carmesim mais uma vez.

Queria de novo aquele abraço que já se perdeu entre os cadernos de jornal e vez ou outra surge estampado no Mais, uma surpresa no emaranhado de folhas dominicais onde por trás do chumbo cinza da proximidade com a segunda-feira, dá pra encontrar traços de carmesim e de abraços apertados de olho na chuva que rói o asfalto.

A Folha não trouxe nada demais naquele domingo, mas havia a certeza de que os jornais nunca acabariam, algum dia tudo ia chegar. Pra estar preparado, comprei mais chá e vou esquentando a água na terra da garoa. São as águas de março fechando o verão, mas não a vida que ainda pode ter relâmpagos de carmesim. E segunda-feira de manhã, tem sempre o café.

Ele disse que a gente passou o dia todo esperando o jornal de amanhã.

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