Fórum das idéias e textos que surgem na minha cabeça em momentos variados. Textos de todos os tipos que traduzem a minha natureza de escritor à linguagem visual.
EU SOU
idéias em construção
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loucura contida
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sensibilidade voraz
comunicador por excelência
domingo, abril 18, 2004 Placebo
Estou com fome. Não adianta comer. Minha fome vem e eu não consigo fazer ela fugir. Minha sede já nem sinto. Eu bebi uma vez e foi bom. E depois doeu. Agora doem todos os órgãos. Tudo, dos pulmões ao estômago, treme de raiva e medo e angústia e tristeza. Já cansei e nem o sono não vem, que é pra me machucar um pouco mais.
Não consigo pregar os olhos. As noites passam que nem uma lâmina que vai abrindo mais a úlcera que já corroeu meu estômago. Vazio. Vazio de não ter mais fome, mais vontade. Vazio como um peito escarrado, arranhado. Não há nada lá dentro. O coração bate pra dentro e murcho. Tudo carcomido.
A primeira vez que eu bebi teve o melhor gosto. Depois doeu como dói agora, só um pouco menos que agora. Mas o gosto é tão bom. E fui ficando louco pelo gosto. E aí, eu deixei minha úlcera aumentar. Café era como água, pra apaziguar. Não adiantou. Eu queria aquele um gosto de boca que não larga. Mesmo doendo muito depois.
Tenho muita fome de vontade de comer. Tenho que pôr algo pra dentro porque se não tudo vai desabar. Estou definhando de fome e não tenho o que comer. Nada parece sustentar e tudo provoca o mais desgostoso asco. A comida é uma melancolia.
Só o licor daqueles dias é que era bom. E ele não pode mais voltar. A fonte secou, a garrafa entornou. Tenho a língua seca de saudade e o estômago vazio de ausência. Até que o vazio do estômago virou buraco negro. E o buraco virou maior que estômago e ele engoliu o esôfago e enfraqueceu o diafragma e os pulmões não conseguem segurar o ar.
Então começam os tremores. Não consigo segurar nada, não consigo pegar em nada. Tudo passa pelos dedos frouxos de mãos magras e toscas. Os dentes ficam sensíveis. Não dá pra morder. Tudo agride os lábios secos e rala ainda pior a garganta trêmula com o esôfago esvaído.
Os ouvidos estão fora de sintonia. Não ouço nada além do bater distante de um coração estúpido, insistente, moleque, imbecil e ingênuo. Os globos oculares estão muito secos pra chorar lágrimas de verdade. Choro pra dentro, que é pra ninguém ver. E as lágrimas vão escorrendo como agulhas por dentro das mucosas. E sangra muito, mas o sangue já até desbotou.
Os cabelos vão caindo. Continuam as facadas no estômago que virou úlcera. Aí, com cada tremor, tenho a impressão de que o corpo inteiro vá virar úlcera. Estou eu me próprio esvaziando. O cérebro já não faz mais conexões válidas. Os neurônios cansaram de dançar como antigamente. Isto, aliado à secura dos globos oculares, provocou a maior e mais branca enevoada de todas as cegueiras.
Estou cego, estúpido. Perdi o rumo e as noções e as vontades. Acho que deveria comer. Mas não tenho vontade pra saciar essa fome. E nada parece querer me sustentar. Não tenho fome de nada e ao mesmo tempo tenho fome de tudo. Tenho fome de um resgate tardio. Mas não um resgate qualquer. Tem que ser eu a me próprio levantar, a me próprio estapear o rosto e acordar, jogar uma água na cara. Estupidez tem que ter um fim.
O amor tem que levar a algo mais positivo que isso. Por isso, quero aprender a arte do desapego. Se não há nada de exclusivo no amor, que eu consiga aceitar o caminho escolhido por quem amo, apoiando sempre. Esperando sempre. Alimentando sempre, que é pra ninguém sentir essa fome que eu sinto agora. Não quero ser placebo.